quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

África é um tubarão-baleia

Roubei a frase do título de um novo amigo ... Dizia ele que África é um tubarão-baleia porque assusta quando se vê, mas é dócil e amável quando nos damos a chance de nos aproximar... 
Essa semana mergulhei novamente com um desses aí. A sensação é a mesma de quando cheguei aqui nesta terra: respeito e admiração.
Aquele medo inicial rapidamente se converteu em amizade e familiaridade. 
Dez meses de Moçambique só me ensinaram... Prepotentemente, talvez ainda acreditasse que vim fazer alguma coisa pela África, mas não demorou muito para que eu percebesse que eu precisava mais dela do que ela de mim. 
E acho que um dos problemas de muitos de nós que trabalhamos com desenvolvimento local é exatamente acreditar que o outro precisa muito de nós. Daí podemos cair facilmente no erro do pai/ mãe que super protege o filho porque é "só uma criança" e não sabe de nada ainda. Nem abandono nem proteção... Como achar o caminho do meio quando tantas pessoas e organizações de diferentes culturas e países interferem uns nos outros? Como essa criança vai andar sozinha?
Ao mesmo tempo, os países da África sobrevivem, a maioria deles, com suas culturas fortes e marcantes encantando aos comercializados como nós que por aqui passam. Eu não sei se ficaria feliz de ver a África inundada de globalização com sua cultura sufocada pelos uniformes do capitalismo. Mas como levar um pouco de melhoria para as vidas das pessoas sem contaminá-las com o consumismo capitalista da nossa cultura?
Bom, tudo isso é só uma reflexão... Ingênua talvez. Mas acho que somos todos crianças, principalmente aqueles que acreditam não ser mais.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Cultura 7 - Quem tem um sonho?

“Hoje, eu tenho um sonho” disse Martin Luther King em frente ao Memorial Lincoln em Washington após os negros terem conquistado direito de igualdade perante a sociedade dos Estados Unidos da América. Sempre me perguntei por que ele diria isso diante de um momento em que o sonho estava se concretizando. Mas existe uma grande fresta entre se uma lei aprovada e sua aplicação. Um povo pode possuir leis muito justas e ainda assim viver em trevas.
Onde estou há leis premiadas internacionalmente e pessoas que são indiferentes e burladores dela e outras - a maioria - que simplesmente a ignoram. Agir sob costumes que retardam qualquer progresso. Começam desde os que estão no poder e que dirá dos que nem acesso à informação dos seus direitos têm. A ajuda internacional somente acostumou um povo organizado em tribos a pedir indiscriminadamente entre eles próprios e principalmente aos que vem de fora. Pedem tudo, o que precisam e o que querem. E por que falei sobre o sistema de tribos? Essa teoria surgiu de uma pessoa que conheci e me parece que faz sentido esses e outros entraves ao desenvolvimento surgirem. São competitivos entre si, mesmo dentre aqueles que sabem o outro tem mais necessidades que si próprio, mas ainda assim querem tirar vantagens. Ouvi bastante quando cheguei aqui: “essa nossa raça não presta, todos têm inveja e querem destruir o outro”. Claro que minha reação chocada era dizer que isso era uma condição humana não de raça. Mas hoje compreendo melhor o que queriam me dizer. Aqui não é uma mera competição de ser melhor ou pior. O comportamento ainda tribal leva a roubar, vandalizar, agredir mesmo aqueles que são seus vizinhos, familiares... A corrupção é diária, comum, ‘normal’.
A ajuda internacional manda rios de dinheiro para que a população tenha benefícios como registro civil grátis, roupas e medicamentos para órfãos etc. O registro civil tem que ir até as comunidades longínquas para alcançar as pessoas que nem dinheiro de transporte têm. Quando chegam lá, cobram pelo registro a essas mesmas pessoas que nem sabem o que vão comer amanhã. Roupas são vendidas, oferecidas a amigos e familiares.
Há muitas oportunidades de ser corrompido aparecem aqui. As pessoas pedem chorando para que você as beneficie, mesmo que de maneira antiética. E se escandalizam quando recusamos nos corromper, porque você está sendo maldoso.
Essa história me lembra sim, o “jeitinho brasileiro” de resolver os problemas. Mas não me lembro de ter dificuldades de encontrar pessoas honestas no Brasil, mesmo com tantas corrompidas. Mas aqui sim, é difícil. Dar a palavra aqui não significa nada. Descumprem com a mesma facilidade com que a proferiram.
São essas algumas passagens que tenho observado aqui. E da minha luta diária para manter na mente que somente a educação, o exemplo e tempo podem ensiná-los a viver com ética; que mesmo os responsáveis pela educação sendo corruptos, as raras exceções podem fazer a diferença no futuro. E que eu se quiser fazer a diferença precisaria de um tempo de dedicação a esta causa muito superior a um ano...

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Brafricalidade


Um dos encantos de se passar tanto tempo longe de casa são as coisas que aprendemos uns dos outros em terras estrangeiras. Moçambique tem muitas semelhanças com o Brasil. Em parte pelo legado dos portugueses e em parte pelas nossas raízes africanas. Não posso dizer que as idéias mágicas que rodeiam as coincidências da vida não estão presentes no Brasil, mesmo com tanta ciência divulgada na televisão e em revistas. Não falo daquele brasileiro urbanóide que já incorporou mais da cultura estadunidense do que da brasileira. Mas daquele das pequenas cidades que ainda reserva um tempo seu para rezar por sua religião e precisa se benzer quando muitos acontecimentos ruins se sucedem em sua vida... 
Não posso dizer que todo brasileiro tem medo do escuro porque imagina os fantasmas com os quais pode se esbarrar como os moçambicanos. Mas também não posso dizer que desconheço brasileiros que assim são. 
Mesmo com todo o descaramento do brasileiro no modo de falar e de se vestir ou dançar que ainda se diferencia muito de certa formalidade moçambicana, os moçambicanos são francos e calorosos, não pensam duas vezes em apertar sua mão, dar-lhe um abraço, dançar de dama (coladinho), falar alto e ao mesmo tempo em qualquer lugar público.
Em muitos aspectos, essa franqueza é ainda mais evidente do que com os brasileiros. Não hesitam em dizer que essa roupa não combina, que se está ganhando ou perdendo peso, que se está interessado em você e quer seu telefone... Por outro lado tem seus tabus: mulher grávida não fala sobre a gravidez ou não se fala sobre fantasmas ou espíritos (embora todos acreditem)... Nos dois casos, é pra não atrair nada de ruim.
O fascínio que o moçambicano tem pelas novelas brasileiras e com as perguntas que me fazem sobre a realidade no Brasil às vezes me causa impressão de que a terra verde e amarela se tornou uma espécie de jardim do éden onde as pessoas são tão parecidas com as pessoas aqui, mas o país já oferece condições muito melhores que Moçambique. Lamentam aqui que o brasileiro nunca mencione na televisão a irmandade entre os países com origens semelhantes e que falam a mesma língua.
E eu daqui do meu lado, lamento também essa realidade principalmente pelo tanto que o brasileiro aprenderia com a alegria moçambicana que ainda pára para um bom dia demorado contando como vai a vida, que nos dissabores da vida apóia incondicionalmente o vizinho seja ele familiar ou não. Assim como o moçambicano aprenderia a tirar proveito de suas crenças e da ciência sem ignorar esta última com tanta veemência, seria menos passivo diante dos problemas (embora nós ainda estejamos caminhando nesse aspecto também)...
Mas eu também gostaria que essas trocas fossem aprendizados somente, sem alienação, sem negar de onde vieram e se esquecerem quem são, como fizemos nós brasileiros com nossos índios e como alguns moçambicanos já mostram o sufocamento da cultura nacional em detrimento da estrangeira... Não custa nada sonhar.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

No meio do caminho

No meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra
(Carlos Drummond de Andrade)

Há sempre uma surpresa a cada esquina
O sorriso maroto e voz suave
Presentes e brincadeiras sem hora
Ouço a voz de dos Anjos agora
“O beijo amigo - a véspera do escarro”
Como anúncio vil a um incauto
Que segue firme a tropeçar em morro
E amortece os olhos no súbito
Da mutação vulgar e matreira
Despede-se rarefeita a pueril chama
Dando lugar à prima frustração
No emaranhado de entranha que flama.
(Isabela Q. de Oliveira)

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Prêmio Mulher de Lenço

Ontem tivemos no Ajuda às Crianças o Prêmio Mulher de Lenço. O projeto nem sempre é justo na hora de compensar o trabalho de seus funcionários. Numa fase em que o cansaço e o desânimo estavam prevalecendo em quase todos, tive a idéia de fazer um encontro descontraído com a equipe em que todos receberiam pequenas premiações por características irrelevantes, mas marcantes de suas personalidades. Já sabia também que a direção estava considerando um aumento de salário.


Fizemos uma publicidade dois dias antes: “Vem aí: Prêmio Mulher de Lenço. Aguarde...” Ninguém sabia do que se tratava e já estavam mortos de curiosidade. Fizemos a premiação depois da reunião semanal do projeto. E a surpresa foi geral. Não só ninguém esperava que a premiação fosse de pura brincadeira, como também não esperavam serem premiados pelas categorias que criamos para cada um. Mantivemos uma pausa sempre depois de anunciar a categoria para que eles tentassem adivinhar quem era o ganhador e acertaram a maioria...


Categorias do tipo “melhor motorista em marcha lenta: querendo apreciar paisagens ou cumprimentar pessoas na rua, pegue carona”, “melhor não-comedor de ovos: se o lanche for ovo, fique perto dele para ganhar mais um”, “melhor comedor de coisas estranhas: ratos, larvas e tudo o que ninguém nunca quis comer” e etc foram algumas das distribuídas. Dentre muitos risos e sugestões para próximas premiações, fomos jantar fora e lhes foi anunciado que teriam um aumento de salário.


Foi uma noite de lua cheia e farta de alegria.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Cultura 5 - Arte

O ator olha impacientemente no espelhinho que traz no bolso e procura acertar todas as falhas da barba desenhada com tinta no rosto. O suor escorre em parte de nervoso, em parte do calor que a sombra do cajueiro não consegue aliviar. Ouve as vozes atrás do tecido escuro que esconde os bastidores, a platéia mantém os olhos atentos nos cantos do grande pano e conversa impacientemente entre si... Entra o ator, todos se calam. As risadas começam. As histórias são sempre da vida africana sempre rica de fatos muitas vezes cruéis ou no mínimo tristes. Mas são risadas que se ouvem na platéia, sempre entre as pausas quando uma fala os faz pensar.
As mamaes arrumam as capulanas todas combinando entre si enquanto cada uma entoa uma canção para que juntas escolham qual vão dançar. Arrumam-se em fila e aguardam o sinal. A platéia as observa e silencia. Ao sinal, uma delas de voz penetrante inicia o cântico e as outras respondem. Entram em ritmo uniforme dum ensaio de vida inteira. As mãos grossas e calejadas do trabalho diário batem palmas e ditam o ritmo da dança. Algumas pessoas na platéia começam a repetir a canção formando um coro contagiante. A música é alegre e canta a mulher que sozinha teve que criar sete filhos depois que o marido faleceu de SIDA.
Assim é a arte na África. Presente, diária, forte e tradicional. São todos atores, cantores, dançarinos. Artesãos, sim, estão em menor número. Mas não há quem escape da arte. Essa que fala sempre o real em voz suave, ritmo marcante, passos e quadris soltos, anedotas em meio a caras e bocas, cores vivas e brilhantes, formas dignas de um museu de arte em qualquer lugar do mundo.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Dia de Alegria

O frio já começa a deixar Inhambane
O movimento enche as ruas de cores
O Sol abre majestoso o dia na terra da boa gente
Os sorrisos e vozes cantam da vida sabores
E danças fazem a terra pulsar num abraço clemente
O encontro traz calor, força e alegria
Som de risos, odores doces, poeira ao vento
Os pés, senhores de si, vibram em magia 
Mulheres entoam os hinos de ode e alento
Lá vem os noivos, aniversariantes ou madrinhas
Pés no chão, prendas na mão e porte de rainhas
A vida dá feridas, mas seguem e deixam
Setembro na África se abre e elas despejam
Com pérolas no rosto e olhar disposto
Mamaes a semear a essência e a viver no oposto.


Mamaes dançando para entregar prenda aos noivos

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O meio

Ontem completou seis meses que aportei em terras africanas e hoje seis meses de Inhambane. Fico feliz de ter escolhido ficar por um ano, pois finalmente me sinto em casa. Finalmente sinto que consigo trabalhar conhecendo mais onde estou pisando. Finalmente as amizades que fiz vão se solidificando e tenho a tranqüilidade de desfrutá-las. A cultura com todos seus impactos e encantos no meu coração ganha mais e mais o ar de “lar”. Fecha-se um ciclo, meus colegas de “seis meses” se foram, novos chegaram. Novas rotinas em casa e personalidades para se adaptarem, mas agora estou na posição de dizer como funciona ao invés de ter que aceitar o que já estava estabelecido. Em contraste com a realidade de paz está a crua sensação de que estou em contagem regressiva. Os meses agora se contam menos seis, cinco, quatro, três... Sair da África. Nem consigo alcançar ainda os tantos modos de se sentir essa saída.



Foram seis meses e pareceram seis anos ou seis dias. Muito rápido e muito intenso. Ainda tenho seis meses de África. Saint Vincent foi a infância, escola, preparação. Os seis primeiros meses são a adolescência: descobertas em meio à passionalidade, impulsividade, deslumbramento e drama. Agora cheguei à idade adulta. Desfruto de tudo nessa terra iluminada“sem me precipitar e nem perder a hora” como diria Ana Carolina. “Outro tempo começou pra mim agora...” Amém.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Cultura 4 - Luto

Aqui a morte é uma presença constante. Claro que em todo lugar do mundo. Mas aqui 90% das causas de morte são doenças que poderiam ser tratadas e a vida prolongada. Algumas das quais em países mais desenvolvidos, são prevenidas ou tratadas com eficiência, como cardiopatias, trombose, derrame cerebral ou pneumonia. Mas claro que as maiores responsáveis ainda são a malária e a SIDA. Esta última, se não diagnosticada, somente caracteriza uma pessoa como de saúde ruim pelas constantes enfermidades que a acometem. Aqui além dos tratamentos serem precários, demora-se muito a levar as pessoas a um atendimento médico. O que é mais um mal-estar, mais uma febre ou dores se muitas já foram sentidas e aliviadas sem auxílio especializado? Apenas mais um custo para se transportar o doente... Então se espera para ver no que vai dar.
Desde que cheguei, já houve dez falecimentos na vizinhança ou com pessoas conhecidas. Havia ido a um velório no início do mês e hoje de manhã participei de mais um funeral e meu primeiro aqui. E mais uma vez me impressionou a mobilização que é feita em torno do enlutado. Em apenas algumas horas, parentes, amigos e conhecidos já ocupam a casa do falecido dando todo atendimento necessário aos familiares. Desde a fazer a comida até os preparativos do enterro. Todos passam a dar toda a assistência necessária inclusive dinheiro. Após o velório e enterro, um grupo de familiares e amigos se reveza para auxiliar a família enlutada, ficando muitas vezes hospedado na casa. Deixam seus trabalhos, sua própria casa e família para cuidar da outra pessoa. O “depósito das flores” como se chama quando se retorna ao túmulo para orações, colocar flores e dinheiro para os familiares, acontece no 7º dia após a morte, no primeiro mês, aos seis meses e um ano. Cada vez que o “depósito” ocorre, as pessoas levam dinheiro, mantimentos e voltam a se reunir ao redor do enlutado para dá-lhe apoio. Dentre alguns costumes nessas socializações estão: não se colocar as mãos nos bolsos (demonstra falta de respeito), as mulheres devem estar de capulana (tecido que usam como saia), cantar no velório em tom solene (sempre se canta em qualquer encontro), andar de preto durante o primeiro ano do falecimento (pode ser verde, se for da religião Zione, que é semelhante ao nosso candomblé), etc.
Apesar das diversas religiões cristãs e a mulçumana que já são em maioria, o moçambicano ainda traz arraigado as crenças na religião tradicional africana. Essa, por sua vez, crê que os mortos somente passaram para outro lado além deste terreno e devem sempre ser respeitados, caso contrário, podem simplesmente voltarem a exigir este respeito. Isso explica uma cerimônia a que fui de descerramento de um túmulo de uma pessoa que já havia morrido há 28 anos. Acompanhando essa crença está a tradição dos clãs que ainda é muito forte. Por isso, a reunião de familiares e amigos acontece com muita freqüência não somente na morte, mas em qualquer ocasião. As celebrações são em torno de nascimentos, bodas, aniversários. Aqui em Inhambane isso ainda é muito comum. Há um ditado em Guitonga (língua daqui) que diz: Guwonana nya valongo gu nga pimi khu gufa basi. Significando algo como: “que os encontros de família não sejam apenas por ocasião da morte” ou um equivalente “na morte e na boda, verás quem te honra”.
É uma das características que me encanta aqui nessa terra: as pessoas ainda são mais importantes que as coisas. Ser vale mais que ter. 

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Indas e Vindas

 O dia-a-dia trabalhando longe do próprio país significa muitos encontros e despedidas que começa desde o momento em que se sai de casa e de muitos outros momentos com pessoas com quem se encontra pelo caminho e que nos marcam com maior ou menor intensidade. Um dos motivos pelos quais as despedidas doem tanto aqui é que não se tem a menor idéia se veremos aquelas pessoas novamente... Claro que sempre é possível se planejar uma viagem, mesmo a médio prazo para um país distante para um reencontro, mas sabemos também que a vida dá muitas voltas e quem sai daqui pretende voltar para casa ou outro lugar para chamá-lo de lar e nessa escolha tudo pode acontecer: um trabalho sem previsão de férias, filhos, casamento, doença etc. Aqui o adeus sempre carrega muita emoção e um desejo de que o outro siga pela vida feliz, pois no íntimo sabemos que a chance de acompanharmos outro momento com essa pessoa é pequena. Assim é mais uma vez este mês de agosto começa e vai terminar cheio de abraços apertados e lágrimas nos olhos pelos laços criados com esses transeuntes de nossas vidas que vão seguir suas vidas longe de nós. Aqui vai meu abraço e carinho para alguns desses...
Mari, sempre cheias de sorrisos,
paulistana até o último fio de cabelo!
Nos vemos no Brasil!

Veni, conosco por seis meses em I'bane, uma das pessoas
mais doces que já conheci! Por você visito a Alemanha!
 Mau, casa vai ficar mais vazia de sorrisos e chilli mexa!
Nos vemos novamente em breve, México ou Brasil, quem sabe?
João, amigo, irmão, meu pólo sul rsrsrsrssr Que tenhas um retorno feliz!!
Nos vemos no Brasil no sul ou norte! Fica com Deus!





quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Educação 1 - Pensar na pré-escola


Trabalhar com pré-escolas em Moçambique é um trabalho que exige sempre que se lembre as pessoas a importância da criança passar por esse estágio antes de já entrar nas salas de aula da escola primária. É aqui que a criança muitas vezes aprende o português (já que a primeira língua que aprendem são as africanas), algo que professor de escola primária não vai se preocupar, mesmo com as notas estranhamente baixas em todas as disciplinas. A idéia é a pré-escola seja auto-suficiente, mantida pela própria comunidade. Para isso precisam pagar uma taxa simbólica do equivalente a R$1,20, para subsídio do professor. A realidade aqui permite que esse valor seja pago sem muito sacrifício da família, mas eles simplesmente se recusam a pagar. Entra em questão aí a ajuda que qualquer projeto ou pessoa física ofereça à pré-escola ou associação: a comunidade não se acha que deve pagar mais nada e se nega a colaborar. Isso não é via de regra, em algumas comunidades, ainda temos alguma colaboração dos pais, mas bem poucas. A foto em questão é da campanha de higiene que estamos realizando em cada escolinha. O dinheiro vem de doação de amigos e família.Moçambique há muita ajuda internacional oferecendo soluções prontas para todos os problemas. Mas raríssimo os que oferecem a oportunidade das pessoas procurarem soluções por si mesmas. Isso não se vê muito por aqui: a maioria das vezes, as pessoas cruzam os braços e põem a culpa em alguém, mesmo em casos de vida ou morte. Quando comecei a trabalhar com as pré-escolas, essa questão ainda não tinha ficado muito clara para mim. Mas é lá que vemos essa cultura da passividade sendo implantada ma mente das crianças. Tudo se copia, tudo se repete, nada se responde, nada se escreve... Como não se criar uma sociedade de pessoas que esperam que os outros lhe digam o que fazer? Aqui mais uma vez questiono a se ter muito cuidado quando se diz se vai ajudar alguém... Oferecer soluções pode ser exatamente manter a pessoa em problemas.

domingo, 1 de agosto de 2010

Cultura 3 e Linguagem 2 - Colonizados e civilizados

Vindo de um país colonizado como o Brasil, acredito que fica mais evidente a desvalia com que o moçambicano se refere à própria cultura. Nós brasileiros, em geral, ainda acreditamos que o que vem de fora é melhor ao invés de valorizar nossa imensa variedade cultural, nossas diversas raízes e que são as coisas que nos fazem únicos no mundo. Ao invés disso, caímos no erro de acreditar que somos piores que os colonizadores, os verdadeiros “civilizados”, utilizando essa palavra no sentido mais popular de adiantamento cultural. Não deixo de considerar que existem outras questões por detrás, por exemplo, da imposição de uma língua que não é a de origem por exemplo. Acho que ainda não havia parado para me questionar seriamente sobre o quanto isso afeta a cultura positiva e negativamente já que vim de um país de língua unificada em que as línguas indígenas brasileiras são relegadas a recônditos do nosso país: nós não nos misturamos, não as conhecemos, mas se seus falantes querem ser “civilizados”, tem que aprender a “nossa” língua. Aqui em Moçambique dentro de um mesmo estado (província) podem se falar até cinco línguas diferentes. Normalmente numa cidade existe uma maioria falando uma única, mas sempre há pessoas falando outras línguas. Nas áreas mais afastadas do centro urbano (mas não muito, a 20 minutos de caminhada), encontramos pessoas (crianças, adultos, idosos) que não falam nada de português. Dá para imaginar a dificuldade de unificar um país inteiro do tamanho de Moçambique em educação e direitos e deveres dos cidadãos com esse porém da linguagem. Seria preciso uma unificação seja do português, seja de uma das línguas bantu (mesmo assim, qual seria o critério de escolha com tantas espalhadas pelo país?) para que o país pudesse dar um salto de alfabetização e a conseqüente compreensão com o que se tem direito ou não. Tudo o que o camponês que não fala português sabe é que o governo e suas leis não chegam até ele. Mas como disse Paulo Freire, unificação lingüística leva tempo e tem que ser uma decisão política. Algo que acredito que não interessa ao governo de Moçambique, já que preferem impor uma língua falada em outras partes do mundo do que adotar uma que só os locais entenderiam. Lembrando de que Moçambique ainda está totalmente apoiado em ajuda internacional para manter esse país e suas necessidades. Sendo algo atualmente desnecessário já se está sem guerras, com a riqueza de agricultura, caça e pesca que têm no país, sem falar no petróleo, ainda inexplorado nessa terra.
Os moçambicanos e brasileiros são irmãos, filhos de uma colonização portuguesa. Mas também irmãos de muitos outros, de toda a África, da América Latina e parte da Ásia, Oceania, todos com países e pessoas colonizados e ensinados que são inferiores. Acho que um escrito como esse mais parece mais um falando sobre colonização. Mas quando se trabalha próximo às pessoas tentando fazer com que compreendam não precisam ser iguais aos colonizadores para serem melhores e de que sua cultura é linda exatamente por ser diferente e tudo que obtemos como resposta é que “nós, negros, não temos jeito, somos corruptos e burros”. É frustrante. Não só porque não atingimos o objetivo de obter sua compreensão (como fazer alguém ver o que está além de sua vivência diária?), mas porque temos a lembrança no coração daqueles lá do outro lado mundo, próximos a nossa casa que fazem as coisas de qualquer jeito porque “brasileiro sempre dá um jeitinho”, mesmo se for perpetuando o pensamento do colonizador.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Linguagem 1 - O Português Moçambicano

Uma das ilusões que tive quando cheguei foi de que não teria maiores problemas de ser compreendida e de me comunicar porque também falava português. Como disse: uma ilusão! Aqui se fala português de Portugal (que já tem muitas diferenças para o português brasileiro) misturado a influências das línguas bantu (no caso aqui, o guitonga) e com o inglês porque somos vizinhos de países que têm o inglês como língua oficial como a África do Sul, Zimbábue, Malawi e Tanzânia. Daí resulta numa salada de palavras que tanto eu não era compreendia ao falar como não conseguia compreender de imediato o que me falavam, tendo que muitas vezes pedir explicações. As palavras e expressões abaixo estão até presentes no nosso português, mas aqui são utilizadas em contextos diferentes ou simplesmente não se entende se dito à maneira brasileira. Aqui segue a lista de palavras que já incorporei ao meu vocabulário.
Algumas explicações prévias: 1. O moçambicano fala com muita formalidade, então tudo ganha uma pompa que não tem fim. Então um simples aviso de “infelizmente não posso comparecer à aula” se transforma em “por mais que preze muito vossa pessoa e vossa aula, devo anunciar, com muita tristeza, que por motivo de doença, não poderei me fazer presente. Espero que compreenda.” Isso foi um caso real de uma mensagem SMS para justificar uma falta numa aula... 2. Aqui quase sempre se fala em segunda pessoa tu, vós. 3. Todos os verbos no infinitivo ganham um “E” no final, ex: “andare, cantare etc”. 4. O “L” não tem som de “u” como no Brasil e ganha um “E” no final também. “Isso está male”.
Com vocês: o vocabulário moçambicano, mais especificamente de Inhambane, onde vivo.
Ainda - ainda não
Anima - quando se gosta de alguma comida. “Essa sopa anima mesmo”
Acalentar - esquentar
Arrefecer - esfriar
Boléia - carona
Camisola - Jaqueta ou casaco de frio
Chapa - van
Chávena - xícara
Deitar - jogar fora, despejar e deitar-se. Ex: “Deita essa laranja, está mal”
Epa - a vírgula do moçambicano, para ênfase ou como pausa
Gajo - cara. Ex: “Vi aquele gajo de que me falavas”
Geleira - geladeira
Lume - fogo (de fogão e de lenha)
Maçaroca - milho
Machamba - horta
Maningue - muito. “Estou maningue cansado”
Maximbombo - ônibus
Motorizada - motocicleta
Nada! - falado com ênfase é como “mentira” ou simplesmente “não”
Não estou a perceber - não entendi
Não posso mentir - deixe-me pensar
Nice - como no inglês, mas usam de maneira mais abrangente. “Isso tá nice" ou “Eu to nice"
Pa - diminutivo de “epa”. “Isso não pode, pa!”
Paragi - ponto de ônibus
Piri-Piri - pimenta
Plástico - sacola plástica
Prego no pão - Pão com bife
Prisão de músculo - câimbra
Refresco - refrigerante
Sande - sanduíche
Saiu um falecimento - faleceu/ morreu alguém
Sumo ­- suco
To a pedire - por favor
Ainda falta alguns, mas estes foram os que consegui lembrar de registrar. Aos brasileiros com quem falei que se chocaram com meu novo sotaque e vocabulário, aí está o motivo: adaptação. As diferenças culturais já são difíceis quando se entende o que se fala, imagine quando nem se consegue compreender. A mim, é engraçado mudar meu modo de falar, falando o “r” de TODAS as palavras como em “catarata”, utilizando palavras que me faziam rir logo que cheguei, mas que hoje já me acostumei. E assim como aprender guitonga (que será tema de outro post), é a melhor forma de se aproximar das pessoas. Aprendendo que na linguagem, o importante também não é só que se fala, mas como se fala.



quarta-feira, 16 de junho de 2010

Cultura 2 - A magia dentro de uma organização

Esse post poderia ser uma metáfora romântica das dinâmicas organizacionais (interessante tema, por sinal), mas não é.  Vamos aos fatos . Há mais ou menos uma semana, desapareceu o documento do carro da organização. Dos três líderes que utilizam o carro alternadamente, apenas um estava nesta semana, os outros dois estão viajando. Depois de muita procura em vão, e do líder que utilizou o carro afirmar que não era possível perder esse documento porque sempre estava com ele, até que um dia sumiu simplesmente de dentro do carro, chegou ele à conclusão de que o documento foi subtraído por terceiros. Ainda na semana passada, deu-se um prazo para que o documento aparecesse, caso isso não ocorresse, ele tomaria medidas mais enérgicas no dia seguinte. O documento não apareceu e todos ficaram apreensivos com as medidas a que se referia. Reúnem-se todos os funcionários, após calorosa discussão, todos decidem que a melhor saída é procurar um curandeiro para apontar o culpado. Todos decidem contribuir para pagar o curandeiro, exceto um dos funcionários, um reclamão que balbuciava qualquer coisa o tempo todo de todas as decisões que eram tomadas, no fim das contas, pagou. Todos deixam seus trabalhos e saem ao encontro não só de um, mas de dois curandeiros diferentes para se ter uma confirmação do ocorrido. Os dois coincidem na informação, dizem que foi um homem e apontam para o reclamão. Ele negou ter sido ele. Agora o processo continua: é hora do curandeiro fazer o culpado sofrer as consequencias de seus atos com alguma punição física, ainda não se sabe qual, ficar cego, aleijar-se ou sabe-se lá o quê. E isso é urgente, diz o curandeiro, porque a mesma pessoa planeja subtrair algo ainda mais valioso dentro da organização. Os funcionários estão agora todos em estado de alerta, alguns pânico, ninguém fala de outra coisa, todos temem os resultados, porque dependendo de quem for o culpado, este pode ser protegido por uma magia mais forte e o feitiço contra ele irá recair sobre outra pessoa e isso deixa todos atemorizados...
Isso está acontecendo lá no projeto. Literalmente, a bruxa está solta, livre e rica com tanto que lhe pagam para solucionar mistério do sumiço do documento do carro... África, África...

Balancê!! O mês de junho chegou!!

Como uma típica filha desse mês abençoado e festivo, estou muito feliz de que estamos nele. Especialmente estando tão próximo da Copa do Mundo, ouvindo narrações dos jogos com um português de Portugal/ Moçambique, que gargalhar mais que outra coisa...
Que saudades das nossas festas de junho, tão cheias de cheiros e danças que tanto me lembram minha família e meu aniversário. Mas só a título de informação. Não é porque estou longe que nos 30 anos a tradição vai se quebrar. Ei de improvisar uma festa junina com muito estilo aqui na África... Aguardem!!

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Cultura 1 - Superstições

Antes de falar de algumas das superstições das quais já tive oportunidade de conhecer aqui quero só deixar claro alguns pontos. O primeiro e mais importante é de que estou falando de crendices que independem das muitas religiões mais populares aqui. Os cristãos estão em sua maioria dentre católicos e evangélicos, além da tradicional magia africana que no Brasil conhecemos bem, exceto que precisamos retirar todo o invólucro cristão que o candomblé possui e deixar somente a magia africana com seus próprios deuses e entidades espirituais. Independente da religião de que estamos falando essas crenças estão sempre presentes em maior ou menor escala, causando maior ou menor medo (para não dizer pânico, em alguns casos). O segundo ponto é que independe também do nível de escolaridade, dos mais iletrados até autoridades com diplomas já vi falarem com grande  respeito de algumas dessas superstições.
É como já ouvi de alguns deles ao falar que todas essas crenças são rastros de seus ancestrais deixados antes colonizador impor o cristianismo. Aqui vão listadas das que já ouvi, algumas se parecem com coisas que temos no Brasil. Alguns, transcrevi exatamente o que ouvi...
1)      Há muitas pessoas que se transmutam em animais durante a noite, como ratos, cobras, corujas ou hienas (no meu bairro teve um caso daqueles que bateram numa hiena de noite e uma mulher apareceu machucada na manhã seguinte e se torna a suspeita de ‘ser a hiena’);
2)     “Não uso preservativo porque confio no meu marido, além do mais eu vejo que ele tem muito esperma, quem tem SIDA não tem muito esperma.”
3)     “A trombose é um espírito de um mulçumano que apodera do corpo de uma pessoa. Como mulçumano não como carne de porco, quando uma pessoa tem uma trombose , tem que passar qualquer coisa de porco nela, carne, gordura, qualquer coisa. Aí o espírito vai embora.”
4)     “O piri-piri (a pimenta) ajuda as células do corpo a se desenvolverem, quando começa a queimar e a pessoa começa a respirar mais forte são as células que estão se expandindo”.
5)     O homem precisa ter muitos filhos para que seja considerado um homem de verdade, mesmo que seja com outras mulheres, até quatro filhos ainda é pouco.
6)     “Espíritos estão por aí, às vezes podemos ver, às vezes não, e quando se pega uma doença muitas vezes é por causa de maus espíritos.”
7)     “Comer carne de porco dá azar, mas afasta espíritos de mulçumamos.”
8)    “Mulher grávida não pode comer ovo quando vai ter o primeiro filho senão o filho nasce burro.”
9)     Crianças não podem comer ovos porque vão ficar burras.
Bom, nem preciso dizer as conseqüências de não se usar preservativo num país em todas as famílias possuem pelo menos um membro com SIDA e que a poligamia e infidelidade são comuns e freqüentes. E assim como essa, seguem-se outras consequências...


quinta-feira, 6 de maio de 2010

Boa tarde, senhora professora!

Desde segunda-feira que eu e Beth estamos dando aula de alfabetização para crianças numa escolinha que estava sem alfabetizador (animador, como chamam aqui). Ainda não se tem previsão de quando se vai conseguir um animador da própria comunidade, pois as duas anteriores desistiram porque os pais não queriam pagar os 10 Meticais mensais (isso corresponde a 0,33 de dólar americano ou aproximadamente 0,60 centavos de real brasileiro). Esse dinheiro é pouco aqui, mesmo para as comunidades mais pobres não é algo assim tão inacessível mensalmente e iam diretamente para pagar o animador. Mas agora o dinheiro que as crianças pagam é para a própria escola, já que somos voluntárias, são convertidos em melhorias como consertar o teto, aparar o mato nas redondezas e etc.
São cinco dias por semana das 13H às 15H, os primeiros dias foi um sacrifício, mas já conseguimos encaixar esse horário meio ingrato na nossa rotina. Uma pergunta que devem estar se fazendo é do por quê um horário como esse e não de manhã. A razão principal é a refeição. Os moçambicanos em geral, mas principalmente das comunidades mais pobres, não comem de manhã, tomam somente chá. Na hora do almoço é que fazem o mata-bicho (primeira refeição do dia, para nós o café-da-manhã), e criança sem mata-bichar não presta atenção e reclama que barriga dói.
Atualmente temos quinze crianças e vão desde as mais atenciosas e espertas até crianças com déficit de atenção e atraso no desenvolvimento. Todas, de uma forma geral, são uns doces e adoram simplesmente ter um espaço para brincar além da alfabetização, porque a criança africana em geral trabalha muito e não tem muito tempo para brincar, especialmente com outras crianças. Por isso mesmo, dedicamos uma hora para alfabetização e uma hora para brincar.
As condições físicas são impressionantes: nessas fotos já tem esteiras, mas começamos com todos sentando no chão de areia mesmo, até pulga tinha, mas já foi aplicado um pesticida. As crianças ajudam a transportar quadro negro e outros materiais que ficam na casa de uma das organizadoras da escolinha. Contamos com imprescindível apoio de um cajueiro majestoso que ocupa o “pátio” da escolinha, é lá que realizamos nossas brincadeiras. Como não se tem mesas nem cadeiras, fica difícil ensinar a escrever sem apoio, mas isso é África: terra onde as pessoas simplesmente aprendem a criar soluções com o pouco que se tem, então estamos buscando alternativas como, por exemplo, deitar no chão para escrever, daí a importância das esteiras também.
Não espero continuar por muito tempo aí nessa escolinha (embora esteja apaixonada pelo trabalho!), porque a comunidade precisa aprender a se auto-gerir, o que significa ter um animador que seja da própria comunidade e não vá embora em menos de 10 meses... Mas o tempo que tenho estado por si só já tem sido uma experiência muito enriquecedora. Vai para além de enfrentar os desafios da falta de infra-estrutura ou de conhecer um pouco mais da língua local que acaba por ser usada pelas crianças muitas vezes, é adentrar numa cultura em que a educação tem outra velocidade e que as pessoas têm outras maneiras de aprender... E adivinhem só? Não tem ninguém para nos ensinar que maneiras são essas.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

PREPARAÇÃO

Agora finalmente cheguei. Depois um período de observação em cada comunidade ao redor da cidade de Inhambane e da organização de um evento que tomou MUITO mais do meu tempo do que gostaria, posso dizer que agora estou me sentindo em casa. Estou num momento de planejar os projetos que vou realizar dentro do Ajuda às Crianças e isso me obriga a olhar para a comunidade de maneira mais prática e ao mesmo tempo cuidadosa. É buscar em cada carência o que pode ser feito e se pode ser feito, pois sempre dependemos da adesão da comunidade para colaborar conosco seja no planejamento, seja na execução ou ambos e isso muitas vezes é o maior desafio. Daí que é importante entrar na cultura muito mais do que "estar aqui", mostrar respeito, começar a falar a língua deles para que se abram e sintam que podem nos depositar confiança. Trocar informações sobre como as coisas aqui funcionam antes de tentar fazer algo, porque aqui simplesmente não é minha cultura, muito menos meu jeito de fazer as coisas. Eles pensam num tempo diferente, posso até dizer que a "lógica" aqui é diferente, e esse exercício de sair do nosso óbvio é um exercício contínuo.
A adaptação interna é o maior desafio aqui. Pois muito rapidamente podemos conhecer pessoas novas e nos apegar a elas ou aderir um hábito local com o qual nos identificamos, mas internamente sempre somos desafiados de maneira mais profunda e esses desafios não são resolvidos da noite para o dia. E até o tempo para elaborar esses novidades precisamos aprender a separar, porque tudo nos puxa para fora e temos que aprender a separar um tempo para nós mesmos. Ocidentais precisam disso.
Depois de novas rotinas assentadas e de primeiros choques culturais terem passado pela fase inicial do susto, vou buscando esses novos caminhos e soluções que foi o que vim fazer aqui.
E nessa terra em que nos aproxima tanto do calor humano de outras pessoas e de nosso próprio coração, o frio vem chegando aos poucos...

quarta-feira, 21 de abril de 2010

7 de abril - Dia da Mulher Moçambicana

Esse dia aqui foi consagrado à mulher moçambicana por ser aniversário de morte de Josina Machel, esposa do primeiro presidente moçambicano, Samora Machel. Ela foi uma grande ativista dos direitos da mulher e teve muita influência na conquista desses direitos. 
Para termos uma noção de como as coisas são mais ou menos por aqui: 
A África nos choca e fascina. No mesmo dia em que nos encanta, nos defronta com uma realidade dura. Nesta terra em que se tem um pai e muitas mães, é muito comum encontrarmos órfãos. O maior motivo é a SIDA. Há famílias em que não há adultos - os pais morreram e as crianças mais velhas se tornaram os provedores da casa. Mais velhos aí, leia-se doze anos ou menos, dependendo de cada família. Se os pais tinham bens, pode ser ainda pior, pois isso atrai parentes oportunistas. Na ausência de bens também, pois uma criança órfã é uma boca a mais, mas é também mão-de-obra gratuita. Claro que existem pessoas solidárias, mas uma criança ou pessoa vulnerável sempre é alvo mais freqüente de oportunistas.
Nesse ínterim, se estavam na escola, podem nunca mais ir e se nunca foram podem assim permanecer. Aos meninos, a sociedade ainda dá o status de ser o chefe de uma casa quando constituir família e ter quantas mulheres puder manter. Mas às meninas, há o fantasma da gravidez na adolescência com ou sem contaminação de do HIV e uma servidão por todos os dias de suas vidas. Dos corpos cada vez mais deteriorados pelas gravidezes, ainda são exigidos horas de trabalho pesado na machamba -áreas de cultivo- e em casa. Por isso não reclama quando o marido aparece em casa com uma outra mulher, pois agora vai ter com quem dividir o trabalho. Muitas vezes, elas próprias apontam para uma de suas sobrinhas para que o marido a despose a fim de dividir as tarefas de casa.
A mulher moçambicana é assim: sempre a cuidar de tudo em casa e na machamba. E na hora de fazer algo pela comunidade ainda é ela quem mobiliza outras e realiza o que precisa. Muito cedo adoecem, chegam à velhice com sérios problemas de coluna e circulação. Não têm muita opção, mesmo frustradas, se saírem da casa do marido para onde vão? Mulher é sempre mal paga para qualquer trabalho, e que trabalho pode conseguir uma mulher que não estudou. A prostituição aqui é algo comum, não só como profissão, mas como algo que pode fazer para levar comida para casa. Não necessariamente se faz por dinheiro, pode fazer simplesmente por um quilo de feijão ou de arroz. Prestação de serviços como chamam.
Mesmo nessa realidade cheia de dor e percalços, são sempre cheias de dignidade, altivez e delicadeza, vestidas com capulanas como saias e amarradas na cabeça, bem como para levar o bebê pendurado ao corpo. A senhora idosa, curvada que caminha mancando com um grande jarro de água na cabeça, abre um imenso sorriso ao dizer bom dia e nos perguntar como estamos: estou bem e você?, eu respondo. E ela responde: estou bem também, obrigaaada!
A nós, ocidentais, ficamos boquiabertas sem saber o que fazer além do óbvio choque cultural e a consequente sensação de ultraje que a situação toda nos impõe, mas que temos que respeitar simplesmente a cultura. Pois para nós, o homens são em sua maioria em atitude de desrespeito com relação às mulheres. Para a maioria delas, é a vida como conhecem e ainda torcem para que nós, ocidentais solteiras, se casem com um moçambicano.
Ficamos felizes de saber que mesmo havendo esta maioria, existe uma minoria ativa e que está contribuindo para propagar os direitos da mulher. Algumas delas estão no nosso trabalho, mas tivemos a felicidade de encontrar outras pelos caminhos de Inhambane...

Pesquisar este blog