Esta é uma terra de sol quente e areias escaldantes. Cada sombra e apreciada e respeitada. Perto de uma casa, há sempre uma árvore e, a maioria das vezes, é um cajueiro. São sombras perfeitas: acolhedoras e refrescantes. Os galhos do cajueiro parecem abraçar: são verdadeiras casas embaixo das árvores. Não à toa, é um ligar de múltiplos propósitos: reuniões, aulas, refeições, sonecas, sentados numa esteira ou diretamente na areia. O caju é um aperitivo para qualquer hora do dia ou para mata-bicho (o café-da-manhã, a refeição que mata o bicho da fome) e a castanha se tostam para vender.
A refeição básica é a matapa: um prato feito com folhas quais sejam de feijão, de mandioca, de batata-doce, de abóbora, cortadas meticulosamente em tiras finíssimas e fervidas com amendoim e leite de coco. Dentro da matapa também pode se preparar caranguejo, peixe ou camarão, que aqui não custam mais do que um quilo de cebola ou de tomate, às vezes até mais barato dependendo do tamanho do tomate. Isso porque Inhambane é uma península, ou seja, banhado pelo oceano Índico por todos os lados: frutos do mar é que não faltam! Tudo isso, normalmente, é acompanhado de arroz ou farinha.
Quem prepara a comida, serve, cuida da casa e dos filhos é a mulher. O homem trabalha e é servido, sempre. Nada faz em casa nem pela esposa, nem pelos filhos e nem por si, exceto suas necessidades fisiológicas. A diferença entre os gêneros aqui ainda é gritante. Ao homem ainda é ofensa ser cortejado por uma mulher ou sequer ser rejeitado por uma solteira, mais ainda que lhe peça para usar preservativo. À mulher estão culturalmente inacessíveis atividades como pesca ou construção de casas (esse segundo bem menos, até pela necessidade). Pode ser perfeitamente acessível depois de ter alguns filhos que marido queira incluir mais uma mulher como esposa.
A segunda esposa é sempre quem trabalha mais e assim por diante. O trabalho sempre é duro: lavando louças e roupas no chão, até para varrer o chão a posição é a mesma, já que normalmente suas vassouras são feitas de galhos de coco sem cabo, elas tem sempre que se abaixar. Carregar pesos na cabeça também faz parte da rotina, afinal a água perto de casa é privilégio de muito poucos. Como as distâncias são grandes, os filhos sempre vão juntos, normalmente vemos um andando ao lado e outro pendurado por uma capulana (tecido multifuncional) em suas costas. Se são muitos os de colo, os maiores passam a carregá-los também. Assim vemos meninos e meninas que mal passam de um metro de altura carregando outro que ocupa metade ou mais de seu corpo também a percorrer grandes distâncias descalços num sol escaldante 90% do tempo em areias que quase fervem.
Na língua local, o guitonga (também chamado de bitonga em português), sempre se cumprimentam mesmo a longas distâncias, sempre com gentileza e brincadeiras. Estão sempre a agradecer, se nos apresentamos e dizemos nosso nome ou se perguntamos como estão, o “obrigado” ou “nimbuguide” sempre vem em seguida. Mas para a comida tem uma restrição, dizem quando lhe oferecem comida, não se agradece, porque é para todos.
É um povo com cheiro natural do corpo, sem cosméticos, mas sempre limpos. Tomam de quatro a cinco banhos por dia, só água, sem sabão. Em compensação, bebem pouca água, uma ou duas vezes ao dia no máximo, dependendo do esforço e exposição ao sol.
Uma roda de mulheres convida para sempre a uma música puxada por uma só voz seguida de outras repetindo a letra e melodia e obedecem a um ritmo constante, acompanhado de palmas e dança. Na Igreja, o tom solene torna as vozes ainda mais penetrantes e suaves, mesmo sem compreender o que se diz a letra, é impossível não se emocionar com tão suave melodia e um coro de vozes tão afinadas e intercaladas que parecem serem regidas por um maestro invisível genial. Quando percebemos estamos a cantar palavras que não conhecíamos, a dançar ou simplesmente com os corações alegres e aquecidos e os olhos cheios de lágrimas.
Qualquer objeto vira instrumento musical, sempre afinado e ritmado. Essa música natural canta a vida cotidiana da África com suas histórias cheias de perdas, mas também canta o amor à terra e a Deus. O tempo pára e somos transportados para uma outra época em que horários são apenas convenções e não carrascos a nos controlar e a quem devemos incondicional obediência. Tudo se faz em boa hora. A hora inicial é um ponto de encontro que se cumpre, mas a final a Deus pertence. No mercado, mamay (como chamamos as mulheres em particular) está sentada e oferece “manga, banana, limão”, e pergunto “quanto é?”. Espero a resposta que não vem. E a mamay se levanta calmamente e vem em direção aos limões. Muitos segundos já se passaram para um ocidental ouvir a resposta, o suficiente, mas ela pode não ter ouvido, então pergunto de novo: “quanto é?”. E pegando uma sacola de plástico e ela diz: “hum, calma” e coloca lentamente cinco limões dentro da sacola e diz: “custa cinco”. Agradeço e me despeço envergonhada pela pressa de chegar a lugar nenhum...