segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

O ritmo e a pausa

O mês de dezembro é colorido. Cores vivas de lembranças, sorrisos, lágrimas, saudades e alegria. O som de dezembro chegando pra mim é sempre muito barulhento: pessoas conversando, rindo, se movimentando muito rapidamente e parando suavemente para ouvir uma música e simplesmente sentir...
É um mês cheio de cheiros de decoração espalhada pela casa, de comidas diferentes sendo preparadas na cozinha e pessoas bem arrumadas para as comemorações do período.
Estou longe da minha família e dos meus amigos, mas o mês dezembro em terras estrangeiras tem o mesmo cheiro, mesma cor e mesmo som. Só faltam as vozes e o calor de meus amores distantes, o que tornaria o Natal completo.
Mesmo pela metade, o Natal é sempre especial e aqui fazemos de tudo para nos lembrar disso. O quarto que divido com Elizabeth foi, com muito carinho, decorado com pequenos ornamentos que sumiriam em nossas casas, mas que aqui é primeira coisa que as pessoas notam quando passam ou entram no nosso quarto.
Para comemorar dezembro, fazemos e participamos de muitos eventos. Um deles foi o show de talentos. E como temos pessoas talentosas aqui: vozes lindíssimas, pensamentos poéticos, mãos minuciosas no desenho e mentes transbordando senso de humor. Eu me encaixei na nessa categoria do humor, preferi do que ter que traduzir um de meus poemas... Então montei um número com a Beth: fomos as ajudantes do papai noel. Sim, pequenos duendes cantando "Santa Claus is coming to town". Claro que diante de tantos 'reais' talentos tivemos que justificar que escolhemos esse porque tínhamos tantos que ficou difícil escolher um só... :-)))
Mas preferi  esse a recitar um poema, sem dúvida. Foi bom lembrar de rir de nós mesmos, de que todos podemos ser ajudantes de papai noel distribuindo  presentes e alegria. 
Durante essas festas e comemorações, as aulas continuavam, mas já com um espírito de férias, um pouco mais de descontração e ansiedade para os dias livres. Uns se preparando para voltar aos seus países, rever suas famílias e amigos, comer suas comidas preferidas, visitar lugares que lhe fazem lembrar o sentido de 'lar'. 
Para os que ficaram a sensação é de "procurar o que fazer", pois essa é uma época preenchida por família e as nossas não estão aqui. O que temos são amigos novos, praias, rios, cachoeiras e muitas trilhas... Então o que fazemos é ir atrás de trazer para o vazio um pouco da sensação de estar em casa e a sensação libertadora de estar perto da natureza...

domingo, 20 de dezembro de 2009

Desejo

Não sei... se a vida é curta ou longa demais pra nós.
Mas sei que nada do que vivemos tem sentido,
se não tocamos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser :
Colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta,
silêncio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre,
olhar que acaricia, desejo que sacia, amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo. É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais.
Mas que seja intensa, verdadeira, pura...
Enquanto durar.

Cora Coralina

Coisas que estamos sempre aprendendo

Depois de algum tempo!...
William Shakespeare

Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma. E você aprende que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança.
Começa a aprender que beijos não são contratos e que presentes não são promessas.
Começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança.
Aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão.
Depois de um tempo você aprende que o sol queima se ficar exposto por muito tempo.
E aprende que, não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam...
E aceita que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo de vez em quando e você precisa perdoá-la por isso.
Aprende que falar pode aliviar dores emocionais.
Descobre que se levam anos para construir confiança e apenas segundos para destruí-la... E que você pode fazer coisas em um instante das quais se arrependerá pelo resto da vida.
Aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias.
E o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem na vida.
E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher.
Aprende que não temos de mudar de amigos se compreendemos que os amigos mudam... Percebe que seu melhor amigo e você podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos.
Descobre que as pessoas com quem você mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa... Por isso sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas; pode ser a última vez que as vejamos.
Aprende que as circunstâncias e os ambientes têm influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos.
Começa a aprender que não se deve comparar com os outros, mas com o melhor que pode ser.
Descobre que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que quer ser, e que o tempo é curto.
Aprende que não importa aonde já chegou, mas para onde está indo... Mas se você não sabe para onde está indo, qualquer caminho serve.
Aprende que ou você controla seus atos ou eles o controlarão... E que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, sempre existem dois lados.
Aprende que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as conseqüências.
Aprende que paciência requer muita prática.
Descobre que algumas vezes a pessoa que você espera que o chute quando você cai é uma das poucas que o ajudam a levantar-se.
Aprende que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que se teve e o que você aprendeu com elas do que com quantos aniversários você celebrou.
Aprende que há mais dos seus pais em você do que você supunha.
Aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens... Poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso.
Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel.
Descobre que só porque alguém não o ama do jeito que você quer que ame não significa que esse alguém não o ama com tudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso.
Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém...
Algumas vezes você tem de aprender a perdoar a si mesmo.
Aprende que com a mesma severidade com que julga você será em algum momento condenado.
Aprende que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido, o mundo não pára para que você o conserte.
Aprende que o tempo não é algo que possa voltar.
Portanto, plante seu jardim e decore sua alma, em vez de esperar que alguém lhe traga flores.
E você aprende que realmente pode suportar... Que realmente é forte, e que pode ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais.
E que realmente a vida tem valor e que você tem valor diante da vida!
Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o bem que poderíamos conquistar se não fosse o medo de tentar.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Os dois lados de São Vicente


Ontem tive maravilhosa experiência de visitar o outro lado da ilha. Fomos visitar um convento que um foi um hospital infantil e hoje funciona como um orfanato. A visita foi como esperava: uma realidade cheia de pessoas necessitadas de tudo: atenção, carinho, brinquedos, roupas, boa alimentação, saúde. O orfanato fica no lado rico de São Vicente (Windward), um lado muito mais do simplesmente luxuoso, parece que se está em outro país. As pessoas não ficam nas ruas, as cidades muito organizadas, limpas e com casas belíssimas, mais parece uma cidade fantasma. As pessoas, adultos e crianças, são mais calmas, gentis, mais atenciosas, muito menos agressivas que no lado em que moro (Leeward), o lado pobre. A natureza calma das pessoas contrasta com a violência do mar do Atlântico que banha esse suntuoso lado de São Vicente e ficamos com a sensação de que o mar pede olhares quando passamos por ele.As casas são afastadas da estrada e com grande espaço entre si. Bem diferente do outro lado. A sensação que mais me assustou foi de "aqui é privativo, não mexa, não toque!".



Ao retornar para o nosso lado, o sol estava se pondo e uma música suave tocava na van o que tornou mais romântico olhar para as pessoas nas ruas comemorando suas vidas, rindo alto e dançando. "Nosso lado tem mais vida" falei para minha roomie que me acompanhou ao orfanato. Mais vida porque sentem, mais vida por choram, gritam, riem, convivem com a dor, a encaram e levam para a comunidade ao invés de trancarem-se em suas casas numa privacidade solitária.
A solidão e abandono em que se encontram o orfanato fez muito mais sentido, lá é o lugar em que se escondem "as pessoas problemas", os transviados e loucos como diria Foucault na "História da Loucura", pois nenhum das crianças eram órfãs: todos os pais estão vivos. Mas foram deixadas e esquecidas num lugar em que a memória parece ser algo sempre doloroso. 
Esse foi o primeiro laço de Richmond Vale Academy com o orfanato e nossa missão é clara e simples: estar lá por eles.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Duas semanas no Brasil

No dia 15 de novembro eu saí de São Vicente para voltar ao Brasil. O objetivo dessa viagem foi resolver alguns assuntos que ficaram pendentes com a morte do papai. Papelada e mais papelada...
Mas nunca é só isso...
Quando saí da RVA várias coisas já passaram a se desenrolar... Uma delas é que cheguei à conclusão de que os vicentinos são muito solidários quando vêem um estrangeiro sozinho, mas nem sempre quando estão em grupo. Dormir só na pousadinha perto do aeroporto depois de ter aquela sensação de NUNCA se está só, é uma experiência deliciosa, nem percebia o quanto sentia falta disso - que foi o que mais me chamou atenção...
Minha primeira parada antes de chegar ao Brasil foi a Guyana - utilizei uma rota alternativa para ir direto à Belém sem precisar ir à São Paulo ou Rio de Janeiro. Chegando lá é que finalmente dei falta dos dólares que havia esquecido em São Vicente!... Ok, tudo bem, afinal tenho cartão internacional pra isso, certo? Errado! Meu cartão não funcionou em lugar nenhum. Literalmente. Mas aí é que está: como soube que não funcionava em lugar nenhum? O sub-gerente do aeroporto me deu carona por toda Georgetown para procurar um caixa eletrônico que meu cartão funcionasse. E, ao final, ofereceu uma casa onde poderia passar a noite...
O problema não era a noite, podia me encostar em qualquer lugar no aeroporto mesmo, o problema era comer e beber que não tinha dinheiro nem para água (e a água da torneira do aeroporto tinha um gosto horroroso)! Mas o convenci de que ficaria bem sentadinha do aeroporto. 
Quando minha mala chegou (sim, minha mala foi extraviada!), recebi mais dois convites para passar a noite na casa de guianeses (a essa altura já pensava que o problema era meu de desconfiar tanto de pessoas tentando me ajudar...). E resolvi aceitar o convite do que disse que tinha mulher e duas filhas...


Então fui e passei a noite na casa de Anil, Anita, Alisha e Anisha, uma típica família de descendentes de indianos muito comum na Guiana. E eles me trataram como convidada de honra (dentro e talvez além das possibilidades deles). 
A Índia está em todo lugar na Guiana ao lado com os traços da colonização britânica: sorri quando parei na esquina da Carmichael St com Lamaha Ave...
Além de estar abrigada e alimentada, estava feliz de estar tão perto da cultura desse país tão próximo do Brasil - e de Belém - e até então, tão desconectado da América Latina para mim...
Quando enfim cheguei ao Brasil, vieram os abraços apertados e longas conversas, muitas perguntas tentando atualizar os meses que se passaram distantes dos amigos e familiares.
As coisas que mudaram fascinam, encantam e até assustam... Os que permaneceram trazem alívio, alegria ou decepção.
O coração estava transbordando todo tipo de emoção: os reencontros foram muitos. Alguns cheios de ternura e saudade como rever meus irmãos, sobrinhos, minha mãe com os olhos marejados de saudade; ou de muita paixão como rever Michael, um amor de tanto tempo; e ainda aqueles que doeram e ainda doem como tocar o túmulo do papai... 
E quando retornei reencontrei esse presente: minha vida em treinamento, minha vida em comunidades. Meus novos amigos e meus novos desafios.
O bem mais precioso que carregamos é a memória e para tê-la é preciso estar atento ao que se passa e sempre escolher pelo que se quer passar (quando temos a chance) - Carpe Diem! Por isso fui e por isso voltei. E por isso, mesmo com muitas saudades, estou feliz.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

1, 2, 3, ação!


Uma das situações mais complicadas que temos que lidar aqui é com o respeito. O respeito em si é um conceito complicado... Primeiro porque para alcançá-lo é preciso paciência, segundo que muitas vezes o que é chamado de respeito é, na verdade, medo. 
A paciência também é mal-compreendida porque muitas vezes o que dizemos ser paciência é na verdade covardia de falar ou agir. Mas ela é muito mais que isso. É o saber ouvir. Se for falar, como falar? E se for o caso, simplesmente calar... É saber esperar. Aguardar ora apoiando, ora incentivando, ora respeitando o silêncio e a não-ação. 
Sendo assim, não existe o completo respeito sem a paciência. Pressionar alguém, criticá-lo e dizer que o respeita não é respeito. Essa é uma virtude que exige algo bem difícil para a maioria de nós: se colocar no lugar de outro. Tentar enxergar o mundo de um ponto de vista diferente do nosso. E ainda há o perigo de confundir o entender o que o outro quer dizer com saber o que o outro está dizendo... Muito mais que nas palavras o respeito está nas atitudes que temos em relação aos outros. Por uma série de motivos, é muito mais fácil respeitar mais uns do que outros e por isso aqui parece que tudo complica quando o outro com quem convivemos é de uma cultura diferente da nossa (que nem precisa ser completamente diferente). 
Então precisamos aprender de uma forma ou de outra se estivermos interessados na experiência completa de conhecer outras culturas, caso contrário, estamos nos enganando ao acreditar que estamos ajudando alguém (no caso África e São Vicente) e que conhecemos as pessoas com quem convivemos. É claro que sempre dependemos de que o outro esteja, pelo menos, um pouco aberto para trocar um pouco conosco, mas não tentar nem ao menos se aproximar e chamar isso de respeito é presunção. 
Uma das coisas mais frustrantes que venho sentindo é como usamos desculpas para mascarar nossa covardia em agir ou reagir. Como muitas vezes preferimos a opção não-agir e chamar isso de respeito ou paciência e simplesmente continuar num mundo em que os errados são os outros. 
Nesse ínterim, o respeito já foi para o beleléu... Não se respeitou nem aos outros nem a si mesmo. E quando percebemos, já estamos tão envolvidos em nossos medos que esquecemos o que viemos fazer aqui (para aqueles que sabiam de antemão...) e passamos a maior parte do tempo usando máscaras para olhar nos olhos até de quem enxergamos no espelho...

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Os motivos


O mais estranho da vida, às vezes, não é ter que tomar decisões, mas acredito que não saber muito bem porque escolhemos certos caminhos que seguimos. Quando achávamos que sabíamos, vamos descobrir mais tarde que não sabíamos e tínhamos outras razões para fazer uma certa escolha. 
Numa semana em que estamos todos aflitos na expectativa para a definição de qual projeto iremos trabalhar na África, surgem muitas questões que põem em cheque os motivos que dizemos ser os verdadeiros e aqueles que de fato o são.
Dentre as perguntas feitas sobre cada projeto, os interesses variam desde o que se faz em cada um e qual o seu nível de organização até qual é o cardápio diário ou se é em centros urbanos.
É difícil não julgar como as pessoas tomam decisões tão importantes baseadas em aspectos superficiais principalmente quando estamos competindo pela mesma vaga.
Por outro lado, o que é superficial? Como falei anteriormente, vamos conhecer muitas de nossas motivações somente anos  depois. Porém, o que está na superfície é importante da mesma forma - não é por ser a ponta do iceberg que deixa de ser uma parte relevante do iceberg. Se nos deixar dominar pelo medo e preocupação de ser o superficial ou profundo, podemos levar anos sem viver nada nem de um nem de outro. 
E essa habilidade de viver o que se sente é lapidada com os anos  e com as escolhas certas e erradas que fazemos  e só então podemos vivenciar a congruência.
Mas hoje consigo ver com mais tranquilidade que estou numa situação em que independente da situação, já estou ganhando (win-win situation). O que quero dizer é que meu desejo de aprender e de trabalhar num projeto social não vai mudar, independente de qual projeto for. Meus motivos para estar aqui serão úteis e importantes em qualquer lugar, tudo o que eu fizer, vou dar o melhor de mim. Com isso sinto um certo alívio e, ao me libertar da obrigação de ocupar uma determinada vaga, permito que a mão da sorte e do destino também me leve para onde posso ser mais útil e evoluir mais como ser humano... 

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Aquilo que falta


Depois de um agitado mês no meu blog escrevendo com certa regularidade é de se estranhar que um mês inteiro tenha se passado em branco. Foi um mês em muita coisa continuou acontecendo nessa agitada vida em treinamento na Richmond Vale Academy. Mas nesse contexto de novidades o que me deixou sem chão e de coração dolorido ocorreu no meu país, na cidade em que cresci: meu pai se foi desse mundo. Claro que havia passado pela minha cabeça que ao viajar para cá poderia ser a última vez que o veria, e assim o foi, mas preferi não acreditar nisso, até porque ele sempre nos surpreendia com sua saúde de ferro...
Quando o treze de outubro chegou, uma terça-feira, eu perdi a noção do tempo e precisei de umas semanas para conseguir alcançar o chão novamente. Quem viveu algo semelhante sabe como é viver como um autômato, realizando atividades sem pensar, somente um corpo se movimentando em diferentes direções e sentidos. O apoio que tive aqui de meus novos amigos foi essencial para que eu conseguisse retomar minha rotina não só nos afazeres, mas no sentir que desde aquele dia converteu-se somente em dor...
Quando finalmente voltei a sentir (alegria, raiva, tédio, entusiasmo etc), pude ver melhor como me senti pequena diante de uma falta tão intensa. E como podemos voltar a ser crianças em poucos instantes, não ao esquecer objetivos ou responsabilidades, mas ao se sentir vulnerável e ficar imóvel conseguindo apenas soluçar. E essa posição nos faz pensar em nós mesmos, quem somos, porque fazemos nossas escolhas e, principalmente, como nossa vida é frágil e fugidia. 
Venho sentindo o quanto não temos consciência da importância daqueles que nos cercam e o papel deles em nossa vida e o nosso na deles. Como pequenos atos fazem diferença, como a raposa do pequeno príncipe cativada por sua visita diária e que sabia que choraria pela ausência do amigo, mas que fez questão  assim mesmo de tê-lo por perto.
Os atos mais simples deixaram de ser ordinários para serem as mágicas mudanças quase sempre invisíveis em nossa rotina e que nos torna mais humanos: sentir e ter consciência do que se sente.
Meu pai se foi sem expressar com palavras o que sentia e muitas vezes expressou o oposto do que sentia em seus atos. Tudo isso tornava difícil para qualquer expressar sentimentos perto dele, principalmente diretamente para ele. Mas posso dizer que conseguir muitas vezes pular esse muro e expressar o que sentia por ele, que ele se foi sabendo o quanto eu o amava.
A distância de tudo, entretanto, é traiçoeira e ainda sinto falta da despedida, de um abraço, de uma palavra que não ouvi ou de um sorriso que falasse no silêncio... Não sei se sinto falta dele simplesmente, ou de algo que me confirme que é verdade que ele se foi. 
Minha vida continua, meus planos e o futuro que estou construindo. Mas há essa presença constante de um vazio dolorido...

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Aspiração e Transpiração



Querer algo e conseguí-lo com muito suor é o que dá um gosto especial as nossas conquistas. É próprio da natureza humana esse poço sem fundo de desejos e aspirações. Independente do que se quer e de como se tenta conseguir o que se quer. Se se aspira apenas uma coisa ou várias ao mesmo tempo, se as aspirações duram anos ou dias. O não-tentar realizar um desejo por si só já é outra aspiração que vem disfarçada de uma mais aceitável.
O verdadeiro querer humano vem sempre acompanhado de algo para realizá-lo. Mesmo aqueles que se aprisionam no medo do novo e do risco estão sob a tutela do querer ficar no mesmo lugar.
Então quando fazemos escolhas de estudos, trabalho, constituir uma família, mudar de cidade ou de casa, há sempre duas aspirações envolvidas: uma superficial - aquela que logo nos vem à cabeça - e outra mais profunda que podemos passar anos sem saber qual é. 
O trabalho voluntário é algo que há muito vem despertado o interesse de estudiosos da psique humana por ser algo que, materialmente, não há ganho regular e muito menos abundante. Considerando que na sociedade que vivemos o ganho material não só é necessário - pelo menos para a subsistência - como estimulado excessivamente, o que levaria pessoas a viver com básico para trabalhar para ajudar outras pessoas? O que aspira uma pessoa que vive pelo ideal de melhorar um pouco da vida de uma pessoa de cada vez? 
Há muito o que se dizer sobre as aspirações do voluntário de acordo com as teorias psicológicas: desde o simples compensar uma culpa por não ter ajudado alguém que ama até de um desejo sádico de poder sobre outras pessoas. Durante muito tempo eu vivi o dilema de analisar as motivações do voluntário sem perceber que me aprisionava atrás do hábito adquirido na faculdade de psicologia de sempre questionar os porquês de nossos atos e do medo de aceitar viver com muito pouco. Este segundo foi mais fácil de superar...
Acredito que o momento de superar o tal hábito foi quando vi uma pessoa em situação de necessidade mais básica impossível: sem ter o que comer e sem saber onde e como conseguir comida. Foi quando um amigo falou: se vir uma necessidade, atenda! E ele assim o fez ao, não só dar comida, como ensinar essa pessoa como cultivar sua comida e como ter um ganho regular para se sustentar.
Essa simples frase foi o estímulo que precisava para superar o dilema racional. Mais do que a fome ou vestuário, a principal necessidade do mundo é de saber: se as pessoas soubessem o que fazer para não passar fome, o fariam! Comecei a me perguntar pra que me questionar sobre os porquês de alguém ajudar outra pessoa se no final das contas o mais importante era o resultado da ação e não sua razão intrínseca!


Foi quando o meu querer falou mais alto. No entanto, era só o início da jornada. Pois detrás do trabalho do voluntário há muita transpiração e se esse não for a real aspiração muitas oportunidades aparecerão para se desistir. Esse ainda é um trabalho que desperta desconfianças por não ter como objetivo lucro pessoal. Além do erro de compreensão comum entre trabalho voluntário e assistencialismo - que são bem diferentes - gerar críticas e exigências de que temos obrigação de dar algo material (que é o assistencialismo)...
Apesar de não ser o objetivo principal, mas o trabalho voluntário acaba por ser uma espécie de contracultura por nos fazer refletir os valores capitalistas. Se é reacionário e se está totalmente atrelado à cultura capitalista ou não é algo que, ao menos, surgiu com o intuito de minimizar os efeitos do capitalismo colonialista. O rastro de pobreza e miséria que a cultura do lucro deixou e continua deixando é tão grande que torna o voluntário um grão de areia lutando contra o vento. Mas se aspiramos a melhoria, precisamos entender que existem brisas a nosso favor e que nosso suor planta sementes ora de frutos e legumes ora motivação no coração das pessoas.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

A very blue sky



Ontem foi o primeiro dia em que me senti num país estrangeiro. Pode parecer estranho afinal faz três semanas que estou aqui. Mas viver nesse regime de alojamento estudantil e num programa intenso de treinamento põe a pessoa numa redoma isolando-a do mundo. 
Até então era só uma convivência com outros estrangeiros. Saímos muito pouco para "ver o mundo lá fora", até porque a RVA fica a quarenta minutos a pé da cidade mais próxima e não existe transporte público para essas bandas, só se chamarmos.
Então chegou o dia da minha primeira aula de Arts & Drama para a comunidade e me vi frente-a-frente com quinze endiabrados adolescentes entre doze e catorze anos falando -entenda-se: tagarelando/ gritando - um dialeto estranho (mas que eles chamam de inglês...) tive vontade de gritar e rir de mim mesma... Putz!
O próprio diretor da escola gritava e agarrava os pimpolhos pela camisa para fazê-los se sentar - só sentassem, porque não se calavam...
Quando saí de lá a vontade de gritar foi sendo substituída por muitos risos.
Há menos de uma hora atrás - eu pensava - eu comentava com João (que também ensina essa disciplina comigo) que o céu estava muito azul pensei no calor, mas lembrei de Belém em que muitos dias o céu fica sem nuvens e sol parece deixar o azul do céu mais azul e por um momento pareceu que estava em casa. É incrível como as semelhanças tem a capacidade de aproximar e as diferenças de afastar... 
Tanto um como o outro é só uma questão de perspectiva: admirar a beleza do azul do céu ou reclamar do calor... Só que mudar de perspectiva exige mexer com sentimentos, o que não é simples...
É enxergar um bando de crianças hiperativas falando uma língua incompreensível como uma situação desesperadora ou vê-la como a oportunidade de aprender que linguagem essas crianças entendem e, quem sabe, criar uma maneira de me comunicar com elas.
Primeira lição da disciplina Arts & Drama: como lidar com diferentes públicos.

domingo, 20 de setembro de 2009

Frenesi




Não há como negar que fazer uma viagem por si só já é um  motivo de muita excitação. Mas viajar para outro país onde você vai não só conviver com a cultura local como vai morar com pessoas de, pelo menos, quinze culturas diferentes da sua é uma situação que demanda um tempinho pra se adaptar e pra gente se acalmar a ponto de nem dormir direito pra não perder nenhuma roda de bate-papo... 
Quando o programa de instrutor de desenvolvimento começou, somou-se a euforia da convivência com o grupo com o cronograma de atividades que é nada mais nada menos do que 70 horas semanais!! Pra se ter uma idéia, nós moramos no mesmo lugar que estudamos e trabalhamos e é, simplesmente, uma correria o dia inteiro! Quando a gente pára, tem tanta coisa pra fazer de trabalhos e planejamentos, além dos assuntos pessoais como falar com a família, escrever no blog :-)), fazer a unha etc, que a gente acaba indo pro mais urgente que são as tarefas do programa. A conclusão é que o tempo pra si é reduzidíssimo. 
Imagine o que é conviver num alojamento em que as pessoas participam das mesmas atividades, você não tem privacidade: fecha-se a porta do quarto e as pessoas batem e entram pra resolver mais um assunto inadiável...
Pelo menos, quando temos folga realmente nos esforçamos pra fazer uma atividade relaxante e divertida. No dia da Indepedência do Brasil, tomamos café da manhã ao ar livre e cantamos o hino nacional. Dia da Independência do México, tivemos um jantar mexicano. Sem falar nos aniversários, cada evento procuramos fazer algo diferente, o que exige bastante criatividade aqui, porque temos recursos limitados para coisas grandes. Mas está aí mais um dos grandes aprendizados que temos aqui: como fazer render os recursos que temos.
O outro, obviamente, é aprender a administrar nosso tempo.
Mas o principal, sem dúvida, é o da aceitação e diplomacia: como lidar com as diferentes culturas, opiniões e atitudes. Na hora da diversão, tudo acaba se resolvendo. Porém o trabalho começou e com ele os desafios são bem maiores... 

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Meu 7º dia em RVA e Welcome Party



Quando completei uma semana em Richmond Vale Academy, quinta-feira passada, deu pra sentir bem como seria minha vida daqui pra frente como Development Instructor: muito trabalho, inclusive braçal, e muita correira. Já tínhamos feito um trabalhinho na horta da escola, mas nada como nesse dia. Foram quatro horas e meia num sol escaldante arrancando mato e plantas e depois revolvendo a terra. A sensação é que nunca havia água suficiente para nos hidratar. 
Por outro lado, é reconfortante trabalhar com várias pessoas executando a mesmo atividade e depois ver nosso trabalho feito. 
À noite tivemos nossa Welcome Party: além do jantar à luz de velas com pizza e coca-cola, improvisamos uma pista de dança. Muita música latina e todo mundo dançando de qualquer jeito. Quem não sabia como dançar, pulava, dançava o que sabia... Além disso, foi bom se arrumar um pouco depois de passar dias e dias suando e se sujando direto, poder colocar uma roupa limpinha, bonita, passar maquiagem! Coisas de meninas... rsrsrsrsrsr

domingo, 6 de setembro de 2009

Hábitos

Acho que a primeira reação que temos ao chegar num lugar novo é perceber aquilo que é diferente do que estamos habituados. Aqui vão algumas situações que passei ou que soube da cultura caribenha...
Tenho que começar pelo inglês deles que é esquisitíssimo. Até chegar em RVA, eu achava que estava muito mal mesmo com meu inglês, porque eu não entendia nada do que o pessoal da imigração ou da companhia aérea de Trinidad e daqui de São Vicente dizia. O inglês daqui é um pouco melhor que o de Trinidad, mas ainda assim, não é fácil de entender, além disso eles sempre falam como se estivessem brigando com você, como eu estava sozinha durante todo o percurso até chegar aqui, eu também comecei a falar brigando srsrsrsrsrsr não sei isso contribuiu para que eu chegasse mais rápido... Finalmente quando cheguei percebi que my english was fine, mas o deles não!
Os homens locais falam com as estrangeiras e fazem os convites mais obscenos que você possa imaginar! É muito comum realmente turistas virem aqui para um turismo sexual com os altos e sorridentes afrodescendentes da ilha. A maioria de nós não está aqui pra isso, mas vá saber a diferença! Além disso, outro hábito de todos aqui, homens e mulheres, é sempre cumprimentar, mesmo que não se conheça, então quando menos se espera pode se receber um convite para um hot sex no caminho para o boteco mais próximo para comprar coca-cola...
Apesar da indiscrição e vulgaridade desses convites e da dança (soko) locais, o povo de São Vicente é, em geral, muito receptivo, caloroso e solícito com estrangeiros. Isso combinado com a paisagem e as muitas possibilidades de passeios ecológicos tornam São Vicente uma ilha que vale muito a pena conhecer.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Saint Vicent and Grenadines e a Richmond Vale Academy


Meu quarto fica no prédio à direita, no terceiro degrau


Após 37 horas viajando, dormindo torta encostada pelos cantos, eu finalmente aterrissara na pequena ilha de São Vicente e Granadinas. Meu coração estava a mil!! Quando saí do pequeno avião, esperava um aeroporto, onde pudesse no mínimo esperar o dia clarear para eu poder fazer alguma coisa - afinal já era madrugada! -, mas o que vi foi um pátio e uma pequena sala com dois guichês com os oficiais da imigração, uma esteira de bagagens e a saída... só! Não, ainda tinha UM telefone, de onde tentei novamente me comunicar com RVA sem sucesso...
Todos foram muito solícitos desde os oficiais da imigração até os seguranças. Foi graças ao segurança da entrada que conseguiu um táxi de confiança dele que me levasse até Richmond - sim, pois ainda tinha isso: não eram todos que traziam até aqui. É outra cidade... E é uma ilha montanhosa, então o caminho é cheio de curvas subidas e descidas. Quando entramos na estrada propriamente dita subindo umas da muitas curvas da estrada, vi o mar do caribe refletindo a luz da lua que estava simplesmente linda! E foi assim o restante do trecho, ora ela iluminava o mar ora os vales maravilhosos... Nem cansada mais me senti!
Quando chegamos, ninguém acordou, após muitas tentativas batendo em muitas portas (e aqui tem muitos quartos), até que Royal acordou. Um pequeno cachorro amarelo fez um escândalo e acordou Szilvia (responsável pela promoção, recrutamento de voluntários, conseguir parceiros etc.)...
Enfim, acordei em Richmond Vale Academy, um lugar incrível pela paisagem e pelas pessoas.
No próximo post já falo sobre o que fazemos aqui.
Agora preciso ir, vou cozinhar meu primeiro jantar para todos em RVA! :-)))

Port of Spain





Port of Spain é a capital de Trinidad, República de Trinidad e Tobago que é um país caribenho bem pertinho da Venezuela e que está comemorando 45 anos de independêcia da Grã-Bretanha. As poucas horas em que fiquei lá pude perceber que é um país que vem lutando para se autoafirmar e onde quer que andássemos no aeroporto havia sempre muitas faixas nacionalistas e de exaltação da nação: "we aspire together, we achieve together", sem falar em numa foto gigantesca do primeiro-ministro e do presidente bem no lounge internacional... Acredito que por tudo isso, tem muita desconfiança com estrangeiros, são frios e cheios de precauções, parece que nunca acreditam totalmente no que você está relatando.
Por tudo isso, assim que pisei lá fiz de tudo para conseguir um vôo mais cedo para São Vicente. O aeroporto é muito desconfortável e com pessoas desconfiadas nem dava pra dizer que ia ficar bem durante a noite como fiquei no Panamá.
Fiz muuuita pressão e consegui um vôo para nove da noite, mas parece que lá é tradição haver atrasos, vi vários vôos em que isso aconteceu. Atrasos assim de duas horas tranquilo e ninguém avisa nada, simplesmente nada acontece e você nem tem pra quem perguntar porque os atententes da empresa só aparecem na hora do embarque e tá todo mundo tão cansado de esperar que só quer saber de embarcar...
Daí chegou a hora: onze e pouco da noite, lá estava eu, finalmente, vindo para São Vicente num daqueles aviões pequenos com hélice que fazem uma barulheira danada e sacodem tanto que parece que vc está numa cadeira de massagem...
Mas não sabia o que iria fazer, pois não tinha conseguido telefonar para ninguém de RVA em Port of Spain, nem e-mail, nada! Daí iria chegar em São Vicente de madrugada, com malas que mal conseguia carregar, sem conhecer ninguém e sem um táxi de confiança (que o pessoal mandaria se eu tivesse conseguido falar com eles)... Iagora, eu pensava...

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

E o momento é agora! No Panamá



Acima: eu já de manhã, pronta pra embarcar para POS e abaixo o aeroporto como estava na hora que fui dormir.
O carinha sentado de blusa listrada também dormiu estatelado nos bancos como eu. rsrsrsrs

Após muita uma longa espera e expectativa, chegou o momento de deixar o Brasil e fazer uma viagem longa em quase todos os sentidos. Longa porque são dias viajando até chegar até São Vicente que é para onde estou indo. Passei uma noite e uma manhã na Cidade do Panamá, uma cidade que gostaria muito de ter conhecido, mas que não valia a pena passar por toda a burocracia de imigração e alfândega e gastar muito com hotel e essas coisas, se ainda fosse 24 ou 48 horas... E o aeroporto de Tocúmen é como todo aeroporto: frio e com atendentes ora educados ora indiferentes. Isso aqui mais parece um shopping do Second Life com muitas lojas puras de labels: Channel, Lacoste, Versace etc. Nada é popular e com a cara de tradição nenhuma aqui... é território internacional e claro, muito influenciado pelo estilo estadunidense. Talvez todos os grandes aeoroportos sejam assim na área de embarque internacional, e eu que esteja conhecendo só agora. Só a parte onde estou -lounge internacional- é enooorme, mais trinta portões, a maioria dos vôos aqui são da Copa Airlines, na tela de chegada e partida só vemos Copa, vez ou outra vemos de outras companhias.
O cartão da companhia telefõnica daqui até que rende: com cinco ou dez dolares vc faz uma ou duas boas ligações internacionais decentes. Vim com crédito da Embratel, mas o numero para ligar daqui do Panamá não funcionou. Então o Brasil Direto deles me deixou na mão. Internet daqui também é bem falha, é cheia de free wi-fi zones, mas a conexão péssima. Resultado: tive que comprar créditos também para conexão wi-fi, lá se foram mais dez dólares...
Consegui dormir umas seis horas durante a noite, o lounge tava quase totalmente vazio: minha mochila foi um pré travesseiro para meu travesseirinho de viagem, minha malinha de mão ficou no pé e assim por diante. Deu pra descansar legal! Pelo menos de manhã, já acordei com bossa nova instrumental ao invés da música "You're beautiful" do James Blunt que tocou umas quinhentas vezes durante a noite porque estava numa propaganda num telão...
Daqui vou para Port of Spain, capital de Trinidad y Tobago e de lá pego um vôo para São Vicente. Não existe vôo direto para lá ou mesmo com escalas e conexões. Temos sempre que ir para um dos países vizinhos como Trinidad y Tobago, Porto Rico, República Dominicana etc. E sempre países da América Central, porque Venezuela, por exemplo é bem perto, mas não tem vôo pra São Vicente.
No próximo post não sei onde vou estar, se em Port of Spain ou - se Deus quiser- em São Vicente, mas do próximo ponto vou explicando melhor porque estou fazendo essa viagem e pra quê...
Ah, detalhe: muita gente aqui realmente usa o chapéu Panamá: moda? empolgação? Mas é engraçado, nunca vi tanto esse chapéu na minha frente como aqui...


quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Hora que passa

finalzinho de junho, julho e agosto

Hoje me lembrei do livro "O Dia do Curinga" de Jostein Gaarder fala das coisas únicas e diferentes que temos e encontramos em nossa vida. Ainda não havia experimentado essa sensação de estar se distanciando das pessoas que ama para ir atrás de algo que também ama, no meu caso, meu trabalho.
É um misto de emoções e nele muitas reflexões vem juntas. O tempo que passou que queríamos que passasse, mas que agora dói por ter passado sem que altere que estamos felizes porque passou...
Um dia simplesmente chegamos em pontos cruciais e tomamos decisões. Naquele momento em diante, tudo se reestrutura à nossa volta, ora lenta ora bruscamente até percebermos que foi nossa marcha que direcionou o destino. E o destino se torna algo bem menos assustador e bem mais maleável, sem com isso parecer menos inconcebível.
O tempo foi e a hora está. Enquanto o momento estiver e existir haverá em mim essas reflexões, filhas dos sentimentos com a sensatez. É o que por hora posso dizer, da saudade do que foi, da alegria do que está e misto exótico de emoções do que foi e será.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Alquimia

Alguns cliques dos momentos dessa minha vida na região sudeste do Brasil

Enquanto o ano de 2009 vem se revelando nada convencional com a queda de nada menos que dois airbus em vôos internacionais, além claro da morte do 'rei' Michael Jackson nos EUA e os 50 anos de carreira do 'rei' Roberto Carlos aqui no Brasil, fora os escândalos de corrupção aqui nas terras verde e amarelas que não são novidade, nem os pivôs são novos também, agora foi a vez do Sarney e do Senado, de novo?... Pois é, fazer o que o povo brasileiro vem aprendendo agora a mostrar que pode enxergar e agir diante da tranbiqueira que governa nosso país. Mas ainda temos muito chão pela frente.
Na minha vida, também não está muito diferente. Minha querida avó Dulce foi ficar do ladinho do papai do céu e deixou um vazio enorme em mim e na nossa família. Sabemos que ela deve estar bem, e que seu ensinamentos viverão para sempre dentro de nós. Mas o que fazer? A falta é uma lacuna, não é um mero vazio, é 'falta', algo estava aqui e não está mais. Imagine então quando esse algo era nada mais nada menos do que esse ser cativante e encantador que foi D. Dulce? A vida continua... Nesse mesmo ano, na verdade só algumas semanas depois, nasceu Miguel, meu terceiro sobrinho. E que seja bem vindo e abençoado!! Vá saber porque cargas d'água meu carma é ter tanto sobrinho homem... Que seja, vai ser divertido! Para o Miguel, só tenho a dizer que gostaria de ter ficado noites em claro ao lado de sua mãe auxiliando a sua chegada, assim como fiz com seu irmão. Mas a vida nos prega surpresas e eu não estava aí nem para conhecer você. Por ser mais sensível que todos nós, você deve saber que meu pensamento estava com você e que um dia vamos nos conhecer e vou poder dar muitos beijinhos, cheiros e abraços. Além de deixar que você me ensine muitas coisas. Sim, porque você já deve ter percebido que as crianças tem que ter muita paciência com os adultos: a gente nem sempre, às vezes quase nunca, entende o que vocês querem dizer... Mas olha, vocês vão entender isso quando forem cuidar dos filhos de vocês. Enfim, saiba que tia Bel te ama e pensa muito em você!
Tanta coisa acontecendo, e eu com essa sensação terrível de espera de que falei no post anterior. Mas a verdade é que agora estou bem mais tranqüila em relação a isso. É só aprender a diferenciar movimento de ação. O primeiro não tem objetivo, pode-se dizer até que é um mero passatempo, o famoso enchimento de linguiça. Já o segundo é bem diferente, é fruto de uma meta, um objetivo e claro, um projeto. Só consegui enxergar isso quando retomei meus estudos voltados para minha formação em responsabilidade social, mas mais especificamente quando procurei a conhecer de perto a prática ao invés de ficar só na teoria. Acho que quanto mais estamos próximo do que queremos, mais certeza temos de onde estamos. Realmente eu me sentiria sufocada se tivesse escolhido entrar numa especialização, que me levaria a um estágio e assim por diante. Ou seja, eu ainda passaria muito mais tempo no mundo acadêmico do que no mundo real. Sim, porque há uma discrepância brutal entre os dois. Hoje, alguns professores e algumas universidades já compreeendem isso e o quanto isso é nocivo, mas ainda são poucos. Os estágios não são sufucientes para suprir o abismo entre os dois.
Mas comigo a coisa ia mais além. Pois a verdade é que trabalhei e iria continuar trabalhando, portanto estava direto na prática. Era o trabalho a desenvolver que começou a me incomodar. Em outras palavras, nada parecia ser o que eu realmente queria. Até cair a ficha: meu constante interesse por antropologia... psicologia comunitária... responsabilidade social... desenvolvimento local! Era o que eu buscava.
E ir direto para campo ao mesmo tempo em que se vê a teoria é o método do treinamento que vou fazer de desenvolvimento local. E pra mim foi um verdadeiro salvador da sensação de sufocamento que eu estava diante das opções que tinha.
Perceber tudo isso me trouxe até aqui: um momento em que percebo que as soluções estão sempre diante de nós, mas muitas vezes damos voltas ao redor dela e não a alcançamos. Que sou hoje fruto de tudo que fiz ou deixei de fazer até esse exato momento em que estou.
Então o status de "sala de espera" mudou. Agora vejo que estou cozinhando em banho-maria. Sim, porque vamos lembrar que na culinária o que acontece é uma verdadeira alquimia! É só pensar como que aqueles bando de coisas que jogamos no liquidificador e que sai somente um liquido de gosto estranho se transforma num delicioso pudim ao passar pelo cozimento em banho-maria...

domingo, 31 de maio de 2009

Sala de Espera

Tito, Gi, eu e Tia Mazé
O mês de junho começa oficialmente. Faz quase dois meses que estou em São Paulo: primeiro com o objetivo de acompanhar Tia Mazé (esta miudinha que está ao meu lado) em exames e check ups no HC. Mas pouco tempo depois São Paulo simplesmente se tornou uma grande (a maior do Brasil) sala de espera. Nada mal, hein? Não por causa da titia, pois seu tratamento está bem tranqüilo e ela cada vez melhor. A espera é do objetivo que me trouxe aqui: o treinamento para ir a África que começa apenas em setembro no Caribe. Acredito que o maior problema da espera seja que se esta for longa, você acaba sem saber direito o que fazer... Não tem livro ou curso de uma semana que o entretenha o suficiente, sempre você acaba irritado por ainda não ter chegado sua vez. Sim, me atualizo em cursos por aqui além de desfrutar passeios, desbravando essa concretude toda que antes para mim era tão assustadora. Esse 'stand by' tem servido para me apresentar como as pessoas encaram a vida de maneira tão diferente do que via em Belém e, ao mesmo tempo, tão similar.
Há uma agressividade no trânsito, no mercado de trabalho, nos shoppings: são muitas pessoas sempre, em todos os lugares, querendo as mesmas coisas! O modo de se vestir reflete isso: muitas coisas iguais e extravagantes, tanto, tanto que o exótico é comum por aqui.
Pessoas famintas e desabrigadas simplesmente dominam o planeta. Fome de comida, atenção, afeto, conhecimento, objetivo de vida... vão vivendo um dia após o outro tentando somente preencher o vazio d'alma, do estômago, do bolso, da mente.
Vou pra África sim, mas não porque lá tenha mais necessitados que aqui. Foi só o local que escolhi para pôr em prática o que já sei e o muito que vou aprender com o DRH Moviment sobre desenvolvimento local. Mas a idéia é uma só: perceber a necessidade da população local, ajudá-la criar maneiras de suprí-las e de se tornar auto-suficientes.
Isso deixa mais claro pra mim que estar lá fora é um aprendizado, um estágio para o que realmente tem aqui no meu país para ser trabalhado e desenvolvido quando eu voltar.


segunda-feira, 13 de abril de 2009

Uma semana depois...

Voe livre e feliz além de aniversários
e através do sempre.
Haveremos de nos encontrar
outra vez, sempre que desejarmos,
no meio da única comemoração
que não pode jamais terminar.
(Richard Bach)

Agora estou a caminho de Sampa para ajudar a cuidar da saúde de minha querida mãedrinha Mazé. A vida continua. E meus projetos também. Vóvz foi uma das maiores incentivadoras dessa nova jornada. Nada é por acaso. Estou sendo realmente necessária por aqui durante esse período em que já era para eu estar nos EUA. Gostaria de estar lá, mas sei que sou importante aqui nesse momento.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Vovó Dulce, minha vóvz

Vóvz como sempre: cuidando dos netos e bisnetos...

Foi pouco que convivi com ela... Dentre meus 28 anos, apenas em poucos estive ciente da beleza e da luz que emanavam dela. O que me consola é que mesmo que uma parte dela tenha ido, outra está bem pertinho aquecendo meu coração. Sua lembrança é acolhedora, sorridente, esperançosa, confiante, sempre, sempre cheia de amor.

Agradeço a Deus a rara oportunidade de conviver com essa estrela, que continuará a guiar meus passos através de sua luz, ensinamentos e exemplos de vida.

Sorria, minha linda avó! Estás gravada em tantos corações que o tempo só fortalecerá tua lembrança!

sábado, 4 de abril de 2009

DULCE + CLEA = doce, terna, nobre, formosa...

Olha só! Minha linda avó Dulce em fases: dos 75 aos 90 anos. Isso é o que está na parede de sua casinha, idílio dos netos, em Santa Bárbara do Pará. Depois dos 90 anos, achamos que já tínhamos visto de todas as demonstrações de força possíveis dessa velhinha, tanto física como mental e emocional. Ledo engano!! Ela nos mostraria que na casa dos noventa se pode ter tromboses e embolias pulmonares e ainda sair do hospital sorridente e com direito a autorização médica para fazer o que mais gosta: visitar os filhos espalhados pelo Brasil...
Hoje minha vóvz está passando por mais um desses momentos difíceis, só que agora aqui no Rio de Janeiro. Minhas escolhas me trouxeram aqui e o destino me manteve aqui nessa cidade por mais tempo do que eu previa. Fico feliz com os desígnios de Deus, pois preferia estar aqui do que em qualquer lugar nesse momento.
E essa minha Mãe que sempre foi minha estrela-guia continua a me ensinar e mostrar que força e luz são mais visíveis na escuridão...
Que Deus sempre a abençoe!

domingo, 29 de março de 2009

Quando as coisas simplesmente mudam...

De Dowagiac, Michigan, EUA para São Vicente e Granadinas no Caribe... Sabe aquelas coisas que o destino simplesmente traz? Foi o que houve com minha viagem ao Caribe. Pois é, era para eu ter um visto e estar a caminho dos EUA amanhã, maaas a vida tinha outros planos para mim. O visto não foi liberado, então o treinamento que eu iria fazer nos EUA, vou fazer no Caribe. O treinamento começa em setembro, então até lá vou ficando pelo Sudeste do Brasil, Rio ou São Paulo - onde aparecer um trabalho qualquer primeiro - até a viagem. Não posso negar que fiquei triste por um lado. Não é fácil ver nossas expectativas indo por água abaixo numa fração de segundos. Mas, por outro lado, ficar mais tempo no Brasil, especialmente, nesta parte do Brasil, me deu a oportunidade de ficar mais perto de familiares que só via esporadicamente em férias, feirados, festas grandes da família...
É a chance de ficar bem perto deles antes de ficar bem longe...
Enquanto isso, cá estou a trazer sempre novidades dessa estrada para a África.

sábado, 21 de março de 2009

Belém

Tá vendo esse pôr-do-sol maravilhoso? Lá atrás é a baía do guajará! Essa é a vista do meu apartamento de Belém... E lembro bem de assistir o pôr-do-sol com o coração cheio de brilho pelos caminhos que estou traçando e cheio de saudade pela distância que aumentava de cada um de quem me despedia...
Amor: pelas pessoas, pela vida, por meu trabalho, pela humanidade... Posso dizer que, sem sombra de dúvidas, estou movida pelo AMOR.

encontros e despedidas

maria rita

Composição: M. Nascimento E F. Brant

Mande notícias do mundo de lá
Diz quem fica
Me dê um abraço, venha me apertar
Tô chegando
Coisa que gosto é poder partir
Sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar
Quando quero

Todos os dias é um vai-e-vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim, chegar e partir

São só dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro
É também de despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar
É a vida

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