segunda-feira, 17 de maio de 2010

Cultura 1 - Superstições

Antes de falar de algumas das superstições das quais já tive oportunidade de conhecer aqui quero só deixar claro alguns pontos. O primeiro e mais importante é de que estou falando de crendices que independem das muitas religiões mais populares aqui. Os cristãos estão em sua maioria dentre católicos e evangélicos, além da tradicional magia africana que no Brasil conhecemos bem, exceto que precisamos retirar todo o invólucro cristão que o candomblé possui e deixar somente a magia africana com seus próprios deuses e entidades espirituais. Independente da religião de que estamos falando essas crenças estão sempre presentes em maior ou menor escala, causando maior ou menor medo (para não dizer pânico, em alguns casos). O segundo ponto é que independe também do nível de escolaridade, dos mais iletrados até autoridades com diplomas já vi falarem com grande  respeito de algumas dessas superstições.
É como já ouvi de alguns deles ao falar que todas essas crenças são rastros de seus ancestrais deixados antes colonizador impor o cristianismo. Aqui vão listadas das que já ouvi, algumas se parecem com coisas que temos no Brasil. Alguns, transcrevi exatamente o que ouvi...
1)      Há muitas pessoas que se transmutam em animais durante a noite, como ratos, cobras, corujas ou hienas (no meu bairro teve um caso daqueles que bateram numa hiena de noite e uma mulher apareceu machucada na manhã seguinte e se torna a suspeita de ‘ser a hiena’);
2)     “Não uso preservativo porque confio no meu marido, além do mais eu vejo que ele tem muito esperma, quem tem SIDA não tem muito esperma.”
3)     “A trombose é um espírito de um mulçumano que apodera do corpo de uma pessoa. Como mulçumano não como carne de porco, quando uma pessoa tem uma trombose , tem que passar qualquer coisa de porco nela, carne, gordura, qualquer coisa. Aí o espírito vai embora.”
4)     “O piri-piri (a pimenta) ajuda as células do corpo a se desenvolverem, quando começa a queimar e a pessoa começa a respirar mais forte são as células que estão se expandindo”.
5)     O homem precisa ter muitos filhos para que seja considerado um homem de verdade, mesmo que seja com outras mulheres, até quatro filhos ainda é pouco.
6)     “Espíritos estão por aí, às vezes podemos ver, às vezes não, e quando se pega uma doença muitas vezes é por causa de maus espíritos.”
7)     “Comer carne de porco dá azar, mas afasta espíritos de mulçumamos.”
8)    “Mulher grávida não pode comer ovo quando vai ter o primeiro filho senão o filho nasce burro.”
9)     Crianças não podem comer ovos porque vão ficar burras.
Bom, nem preciso dizer as conseqüências de não se usar preservativo num país em todas as famílias possuem pelo menos um membro com SIDA e que a poligamia e infidelidade são comuns e freqüentes. E assim como essa, seguem-se outras consequências...


quinta-feira, 6 de maio de 2010

Boa tarde, senhora professora!

Desde segunda-feira que eu e Beth estamos dando aula de alfabetização para crianças numa escolinha que estava sem alfabetizador (animador, como chamam aqui). Ainda não se tem previsão de quando se vai conseguir um animador da própria comunidade, pois as duas anteriores desistiram porque os pais não queriam pagar os 10 Meticais mensais (isso corresponde a 0,33 de dólar americano ou aproximadamente 0,60 centavos de real brasileiro). Esse dinheiro é pouco aqui, mesmo para as comunidades mais pobres não é algo assim tão inacessível mensalmente e iam diretamente para pagar o animador. Mas agora o dinheiro que as crianças pagam é para a própria escola, já que somos voluntárias, são convertidos em melhorias como consertar o teto, aparar o mato nas redondezas e etc.
São cinco dias por semana das 13H às 15H, os primeiros dias foi um sacrifício, mas já conseguimos encaixar esse horário meio ingrato na nossa rotina. Uma pergunta que devem estar se fazendo é do por quê um horário como esse e não de manhã. A razão principal é a refeição. Os moçambicanos em geral, mas principalmente das comunidades mais pobres, não comem de manhã, tomam somente chá. Na hora do almoço é que fazem o mata-bicho (primeira refeição do dia, para nós o café-da-manhã), e criança sem mata-bichar não presta atenção e reclama que barriga dói.
Atualmente temos quinze crianças e vão desde as mais atenciosas e espertas até crianças com déficit de atenção e atraso no desenvolvimento. Todas, de uma forma geral, são uns doces e adoram simplesmente ter um espaço para brincar além da alfabetização, porque a criança africana em geral trabalha muito e não tem muito tempo para brincar, especialmente com outras crianças. Por isso mesmo, dedicamos uma hora para alfabetização e uma hora para brincar.
As condições físicas são impressionantes: nessas fotos já tem esteiras, mas começamos com todos sentando no chão de areia mesmo, até pulga tinha, mas já foi aplicado um pesticida. As crianças ajudam a transportar quadro negro e outros materiais que ficam na casa de uma das organizadoras da escolinha. Contamos com imprescindível apoio de um cajueiro majestoso que ocupa o “pátio” da escolinha, é lá que realizamos nossas brincadeiras. Como não se tem mesas nem cadeiras, fica difícil ensinar a escrever sem apoio, mas isso é África: terra onde as pessoas simplesmente aprendem a criar soluções com o pouco que se tem, então estamos buscando alternativas como, por exemplo, deitar no chão para escrever, daí a importância das esteiras também.
Não espero continuar por muito tempo aí nessa escolinha (embora esteja apaixonada pelo trabalho!), porque a comunidade precisa aprender a se auto-gerir, o que significa ter um animador que seja da própria comunidade e não vá embora em menos de 10 meses... Mas o tempo que tenho estado por si só já tem sido uma experiência muito enriquecedora. Vai para além de enfrentar os desafios da falta de infra-estrutura ou de conhecer um pouco mais da língua local que acaba por ser usada pelas crianças muitas vezes, é adentrar numa cultura em que a educação tem outra velocidade e que as pessoas têm outras maneiras de aprender... E adivinhem só? Não tem ninguém para nos ensinar que maneiras são essas.

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