Uma das ilusões que tive quando cheguei foi de que não teria maiores problemas de ser compreendida e de me comunicar porque também falava português. Como disse: uma ilusão! Aqui se fala português de Portugal (que já tem muitas diferenças para o português brasileiro) misturado a influências das línguas bantu (no caso aqui, o guitonga) e com o inglês porque somos vizinhos de países que têm o inglês como língua oficial como a África do Sul, Zimbábue, Malawi e Tanzânia. Daí resulta numa salada de palavras que tanto eu não era compreendia ao falar como não conseguia compreender de imediato o que me falavam, tendo que muitas vezes pedir explicações. As palavras e expressões abaixo estão até presentes no nosso português, mas aqui são utilizadas em contextos diferentes ou simplesmente não se entende se dito à maneira brasileira. Aqui segue a lista de palavras que já incorporei ao meu vocabulário.
Algumas explicações prévias: 1. O moçambicano fala com muita formalidade, então tudo ganha uma pompa que não tem fim. Então um simples aviso de “infelizmente não posso comparecer à aula” se transforma em “por mais que preze muito vossa pessoa e vossa aula, devo anunciar, com muita tristeza, que por motivo de doença, não poderei me fazer presente. Espero que compreenda.” Isso foi um caso real de uma mensagem SMS para justificar uma falta numa aula... 2. Aqui quase sempre se fala em segunda pessoa tu, vós. 3. Todos os verbos no infinitivo ganham um “E” no final, ex: “andare, cantare etc”. 4. O “L” não tem som de “u” como no Brasil e ganha um “E” no final também. “Isso está male”.
Com vocês: o vocabulário moçambicano, mais especificamente de Inhambane, onde vivo.
Ainda - ainda não
Anima - quando se gosta de alguma comida. “Essa sopa anima mesmo”
Acalentar - esquentar
Arrefecer - esfriar
Boléia - carona
Camisola - Jaqueta ou casaco de frio
Chapa - van
Chávena - xícara
Deitar - jogar fora, despejar e deitar-se. Ex: “Deita essa laranja, está mal”
Epa - a vírgula do moçambicano, para ênfase ou como pausa
Gajo - cara. Ex: “Vi aquele gajo de que me falavas”
Geleira - geladeira
Lume - fogo (de fogão e de lenha)
Maçaroca - milho
Machamba - horta
Maningue - muito. “Estou maningue cansado”
Maximbombo - ônibus
Motorizada - motocicleta
Nada! - falado com ênfase é como “mentira” ou simplesmente “não”
Não estou a perceber - não entendi
Não posso mentir - deixe-me pensar
Nice - como no inglês, mas usam de maneira mais abrangente. “Isso tá nice" ou “Eu to nice"
Pa - diminutivo de “epa”. “Isso não pode, pa!”
Paragi - ponto de ônibus
Piri-Piri - pimenta
Plástico - sacola plástica
Prego no pão - Pão com bife
Prisão de músculo - câimbra
Refresco - refrigerante
Sande - sanduíche
Saiu um falecimento - faleceu/ morreu alguém
Sumo - suco
To a pedire - por favor
Ainda falta alguns, mas estes foram os que consegui lembrar de registrar. Aos brasileiros com quem falei que se chocaram com meu novo sotaque e vocabulário, aí está o motivo: adaptação. As diferenças culturais já são difíceis quando se entende o que se fala, imagine quando nem se consegue compreender. A mim, é engraçado mudar meu modo de falar, falando o “r” de TODAS as palavras como em “catarata”, utilizando palavras que me faziam rir logo que cheguei, mas que hoje já me acostumei. E assim como aprender guitonga (que será tema de outro post), é a melhor forma de se aproximar das pessoas. Aprendendo que na linguagem, o importante também não é só que se fala, mas como se fala.