quarta-feira, 28 de abril de 2010

PREPARAÇÃO

Agora finalmente cheguei. Depois um período de observação em cada comunidade ao redor da cidade de Inhambane e da organização de um evento que tomou MUITO mais do meu tempo do que gostaria, posso dizer que agora estou me sentindo em casa. Estou num momento de planejar os projetos que vou realizar dentro do Ajuda às Crianças e isso me obriga a olhar para a comunidade de maneira mais prática e ao mesmo tempo cuidadosa. É buscar em cada carência o que pode ser feito e se pode ser feito, pois sempre dependemos da adesão da comunidade para colaborar conosco seja no planejamento, seja na execução ou ambos e isso muitas vezes é o maior desafio. Daí que é importante entrar na cultura muito mais do que "estar aqui", mostrar respeito, começar a falar a língua deles para que se abram e sintam que podem nos depositar confiança. Trocar informações sobre como as coisas aqui funcionam antes de tentar fazer algo, porque aqui simplesmente não é minha cultura, muito menos meu jeito de fazer as coisas. Eles pensam num tempo diferente, posso até dizer que a "lógica" aqui é diferente, e esse exercício de sair do nosso óbvio é um exercício contínuo.
A adaptação interna é o maior desafio aqui. Pois muito rapidamente podemos conhecer pessoas novas e nos apegar a elas ou aderir um hábito local com o qual nos identificamos, mas internamente sempre somos desafiados de maneira mais profunda e esses desafios não são resolvidos da noite para o dia. E até o tempo para elaborar esses novidades precisamos aprender a separar, porque tudo nos puxa para fora e temos que aprender a separar um tempo para nós mesmos. Ocidentais precisam disso.
Depois de novas rotinas assentadas e de primeiros choques culturais terem passado pela fase inicial do susto, vou buscando esses novos caminhos e soluções que foi o que vim fazer aqui.
E nessa terra em que nos aproxima tanto do calor humano de outras pessoas e de nosso próprio coração, o frio vem chegando aos poucos...

quarta-feira, 21 de abril de 2010

7 de abril - Dia da Mulher Moçambicana

Esse dia aqui foi consagrado à mulher moçambicana por ser aniversário de morte de Josina Machel, esposa do primeiro presidente moçambicano, Samora Machel. Ela foi uma grande ativista dos direitos da mulher e teve muita influência na conquista desses direitos. 
Para termos uma noção de como as coisas são mais ou menos por aqui: 
A África nos choca e fascina. No mesmo dia em que nos encanta, nos defronta com uma realidade dura. Nesta terra em que se tem um pai e muitas mães, é muito comum encontrarmos órfãos. O maior motivo é a SIDA. Há famílias em que não há adultos - os pais morreram e as crianças mais velhas se tornaram os provedores da casa. Mais velhos aí, leia-se doze anos ou menos, dependendo de cada família. Se os pais tinham bens, pode ser ainda pior, pois isso atrai parentes oportunistas. Na ausência de bens também, pois uma criança órfã é uma boca a mais, mas é também mão-de-obra gratuita. Claro que existem pessoas solidárias, mas uma criança ou pessoa vulnerável sempre é alvo mais freqüente de oportunistas.
Nesse ínterim, se estavam na escola, podem nunca mais ir e se nunca foram podem assim permanecer. Aos meninos, a sociedade ainda dá o status de ser o chefe de uma casa quando constituir família e ter quantas mulheres puder manter. Mas às meninas, há o fantasma da gravidez na adolescência com ou sem contaminação de do HIV e uma servidão por todos os dias de suas vidas. Dos corpos cada vez mais deteriorados pelas gravidezes, ainda são exigidos horas de trabalho pesado na machamba -áreas de cultivo- e em casa. Por isso não reclama quando o marido aparece em casa com uma outra mulher, pois agora vai ter com quem dividir o trabalho. Muitas vezes, elas próprias apontam para uma de suas sobrinhas para que o marido a despose a fim de dividir as tarefas de casa.
A mulher moçambicana é assim: sempre a cuidar de tudo em casa e na machamba. E na hora de fazer algo pela comunidade ainda é ela quem mobiliza outras e realiza o que precisa. Muito cedo adoecem, chegam à velhice com sérios problemas de coluna e circulação. Não têm muita opção, mesmo frustradas, se saírem da casa do marido para onde vão? Mulher é sempre mal paga para qualquer trabalho, e que trabalho pode conseguir uma mulher que não estudou. A prostituição aqui é algo comum, não só como profissão, mas como algo que pode fazer para levar comida para casa. Não necessariamente se faz por dinheiro, pode fazer simplesmente por um quilo de feijão ou de arroz. Prestação de serviços como chamam.
Mesmo nessa realidade cheia de dor e percalços, são sempre cheias de dignidade, altivez e delicadeza, vestidas com capulanas como saias e amarradas na cabeça, bem como para levar o bebê pendurado ao corpo. A senhora idosa, curvada que caminha mancando com um grande jarro de água na cabeça, abre um imenso sorriso ao dizer bom dia e nos perguntar como estamos: estou bem e você?, eu respondo. E ela responde: estou bem também, obrigaaada!
A nós, ocidentais, ficamos boquiabertas sem saber o que fazer além do óbvio choque cultural e a consequente sensação de ultraje que a situação toda nos impõe, mas que temos que respeitar simplesmente a cultura. Pois para nós, o homens são em sua maioria em atitude de desrespeito com relação às mulheres. Para a maioria delas, é a vida como conhecem e ainda torcem para que nós, ocidentais solteiras, se casem com um moçambicano.
Ficamos felizes de saber que mesmo havendo esta maioria, existe uma minoria ativa e que está contribuindo para propagar os direitos da mulher. Algumas delas estão no nosso trabalho, mas tivemos a felicidade de encontrar outras pelos caminhos de Inhambane...

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