segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Duas semanas no Brasil

No dia 15 de novembro eu saí de São Vicente para voltar ao Brasil. O objetivo dessa viagem foi resolver alguns assuntos que ficaram pendentes com a morte do papai. Papelada e mais papelada...
Mas nunca é só isso...
Quando saí da RVA várias coisas já passaram a se desenrolar... Uma delas é que cheguei à conclusão de que os vicentinos são muito solidários quando vêem um estrangeiro sozinho, mas nem sempre quando estão em grupo. Dormir só na pousadinha perto do aeroporto depois de ter aquela sensação de NUNCA se está só, é uma experiência deliciosa, nem percebia o quanto sentia falta disso - que foi o que mais me chamou atenção...
Minha primeira parada antes de chegar ao Brasil foi a Guyana - utilizei uma rota alternativa para ir direto à Belém sem precisar ir à São Paulo ou Rio de Janeiro. Chegando lá é que finalmente dei falta dos dólares que havia esquecido em São Vicente!... Ok, tudo bem, afinal tenho cartão internacional pra isso, certo? Errado! Meu cartão não funcionou em lugar nenhum. Literalmente. Mas aí é que está: como soube que não funcionava em lugar nenhum? O sub-gerente do aeroporto me deu carona por toda Georgetown para procurar um caixa eletrônico que meu cartão funcionasse. E, ao final, ofereceu uma casa onde poderia passar a noite...
O problema não era a noite, podia me encostar em qualquer lugar no aeroporto mesmo, o problema era comer e beber que não tinha dinheiro nem para água (e a água da torneira do aeroporto tinha um gosto horroroso)! Mas o convenci de que ficaria bem sentadinha do aeroporto. 
Quando minha mala chegou (sim, minha mala foi extraviada!), recebi mais dois convites para passar a noite na casa de guianeses (a essa altura já pensava que o problema era meu de desconfiar tanto de pessoas tentando me ajudar...). E resolvi aceitar o convite do que disse que tinha mulher e duas filhas...


Então fui e passei a noite na casa de Anil, Anita, Alisha e Anisha, uma típica família de descendentes de indianos muito comum na Guiana. E eles me trataram como convidada de honra (dentro e talvez além das possibilidades deles). 
A Índia está em todo lugar na Guiana ao lado com os traços da colonização britânica: sorri quando parei na esquina da Carmichael St com Lamaha Ave...
Além de estar abrigada e alimentada, estava feliz de estar tão perto da cultura desse país tão próximo do Brasil - e de Belém - e até então, tão desconectado da América Latina para mim...
Quando enfim cheguei ao Brasil, vieram os abraços apertados e longas conversas, muitas perguntas tentando atualizar os meses que se passaram distantes dos amigos e familiares.
As coisas que mudaram fascinam, encantam e até assustam... Os que permaneceram trazem alívio, alegria ou decepção.
O coração estava transbordando todo tipo de emoção: os reencontros foram muitos. Alguns cheios de ternura e saudade como rever meus irmãos, sobrinhos, minha mãe com os olhos marejados de saudade; ou de muita paixão como rever Michael, um amor de tanto tempo; e ainda aqueles que doeram e ainda doem como tocar o túmulo do papai... 
E quando retornei reencontrei esse presente: minha vida em treinamento, minha vida em comunidades. Meus novos amigos e meus novos desafios.
O bem mais precioso que carregamos é a memória e para tê-la é preciso estar atento ao que se passa e sempre escolher pelo que se quer passar (quando temos a chance) - Carpe Diem! Por isso fui e por isso voltei. E por isso, mesmo com muitas saudades, estou feliz.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

1, 2, 3, ação!


Uma das situações mais complicadas que temos que lidar aqui é com o respeito. O respeito em si é um conceito complicado... Primeiro porque para alcançá-lo é preciso paciência, segundo que muitas vezes o que é chamado de respeito é, na verdade, medo. 
A paciência também é mal-compreendida porque muitas vezes o que dizemos ser paciência é na verdade covardia de falar ou agir. Mas ela é muito mais que isso. É o saber ouvir. Se for falar, como falar? E se for o caso, simplesmente calar... É saber esperar. Aguardar ora apoiando, ora incentivando, ora respeitando o silêncio e a não-ação. 
Sendo assim, não existe o completo respeito sem a paciência. Pressionar alguém, criticá-lo e dizer que o respeita não é respeito. Essa é uma virtude que exige algo bem difícil para a maioria de nós: se colocar no lugar de outro. Tentar enxergar o mundo de um ponto de vista diferente do nosso. E ainda há o perigo de confundir o entender o que o outro quer dizer com saber o que o outro está dizendo... Muito mais que nas palavras o respeito está nas atitudes que temos em relação aos outros. Por uma série de motivos, é muito mais fácil respeitar mais uns do que outros e por isso aqui parece que tudo complica quando o outro com quem convivemos é de uma cultura diferente da nossa (que nem precisa ser completamente diferente). 
Então precisamos aprender de uma forma ou de outra se estivermos interessados na experiência completa de conhecer outras culturas, caso contrário, estamos nos enganando ao acreditar que estamos ajudando alguém (no caso África e São Vicente) e que conhecemos as pessoas com quem convivemos. É claro que sempre dependemos de que o outro esteja, pelo menos, um pouco aberto para trocar um pouco conosco, mas não tentar nem ao menos se aproximar e chamar isso de respeito é presunção. 
Uma das coisas mais frustrantes que venho sentindo é como usamos desculpas para mascarar nossa covardia em agir ou reagir. Como muitas vezes preferimos a opção não-agir e chamar isso de respeito ou paciência e simplesmente continuar num mundo em que os errados são os outros. 
Nesse ínterim, o respeito já foi para o beleléu... Não se respeitou nem aos outros nem a si mesmo. E quando percebemos, já estamos tão envolvidos em nossos medos que esquecemos o que viemos fazer aqui (para aqueles que sabiam de antemão...) e passamos a maior parte do tempo usando máscaras para olhar nos olhos até de quem enxergamos no espelho...

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Os motivos


O mais estranho da vida, às vezes, não é ter que tomar decisões, mas acredito que não saber muito bem porque escolhemos certos caminhos que seguimos. Quando achávamos que sabíamos, vamos descobrir mais tarde que não sabíamos e tínhamos outras razões para fazer uma certa escolha. 
Numa semana em que estamos todos aflitos na expectativa para a definição de qual projeto iremos trabalhar na África, surgem muitas questões que põem em cheque os motivos que dizemos ser os verdadeiros e aqueles que de fato o são.
Dentre as perguntas feitas sobre cada projeto, os interesses variam desde o que se faz em cada um e qual o seu nível de organização até qual é o cardápio diário ou se é em centros urbanos.
É difícil não julgar como as pessoas tomam decisões tão importantes baseadas em aspectos superficiais principalmente quando estamos competindo pela mesma vaga.
Por outro lado, o que é superficial? Como falei anteriormente, vamos conhecer muitas de nossas motivações somente anos  depois. Porém, o que está na superfície é importante da mesma forma - não é por ser a ponta do iceberg que deixa de ser uma parte relevante do iceberg. Se nos deixar dominar pelo medo e preocupação de ser o superficial ou profundo, podemos levar anos sem viver nada nem de um nem de outro. 
E essa habilidade de viver o que se sente é lapidada com os anos  e com as escolhas certas e erradas que fazemos  e só então podemos vivenciar a congruência.
Mas hoje consigo ver com mais tranquilidade que estou numa situação em que independente da situação, já estou ganhando (win-win situation). O que quero dizer é que meu desejo de aprender e de trabalhar num projeto social não vai mudar, independente de qual projeto for. Meus motivos para estar aqui serão úteis e importantes em qualquer lugar, tudo o que eu fizer, vou dar o melhor de mim. Com isso sinto um certo alívio e, ao me libertar da obrigação de ocupar uma determinada vaga, permito que a mão da sorte e do destino também me leve para onde posso ser mais útil e evoluir mais como ser humano... 

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Aquilo que falta


Depois de um agitado mês no meu blog escrevendo com certa regularidade é de se estranhar que um mês inteiro tenha se passado em branco. Foi um mês em muita coisa continuou acontecendo nessa agitada vida em treinamento na Richmond Vale Academy. Mas nesse contexto de novidades o que me deixou sem chão e de coração dolorido ocorreu no meu país, na cidade em que cresci: meu pai se foi desse mundo. Claro que havia passado pela minha cabeça que ao viajar para cá poderia ser a última vez que o veria, e assim o foi, mas preferi não acreditar nisso, até porque ele sempre nos surpreendia com sua saúde de ferro...
Quando o treze de outubro chegou, uma terça-feira, eu perdi a noção do tempo e precisei de umas semanas para conseguir alcançar o chão novamente. Quem viveu algo semelhante sabe como é viver como um autômato, realizando atividades sem pensar, somente um corpo se movimentando em diferentes direções e sentidos. O apoio que tive aqui de meus novos amigos foi essencial para que eu conseguisse retomar minha rotina não só nos afazeres, mas no sentir que desde aquele dia converteu-se somente em dor...
Quando finalmente voltei a sentir (alegria, raiva, tédio, entusiasmo etc), pude ver melhor como me senti pequena diante de uma falta tão intensa. E como podemos voltar a ser crianças em poucos instantes, não ao esquecer objetivos ou responsabilidades, mas ao se sentir vulnerável e ficar imóvel conseguindo apenas soluçar. E essa posição nos faz pensar em nós mesmos, quem somos, porque fazemos nossas escolhas e, principalmente, como nossa vida é frágil e fugidia. 
Venho sentindo o quanto não temos consciência da importância daqueles que nos cercam e o papel deles em nossa vida e o nosso na deles. Como pequenos atos fazem diferença, como a raposa do pequeno príncipe cativada por sua visita diária e que sabia que choraria pela ausência do amigo, mas que fez questão  assim mesmo de tê-lo por perto.
Os atos mais simples deixaram de ser ordinários para serem as mágicas mudanças quase sempre invisíveis em nossa rotina e que nos torna mais humanos: sentir e ter consciência do que se sente.
Meu pai se foi sem expressar com palavras o que sentia e muitas vezes expressou o oposto do que sentia em seus atos. Tudo isso tornava difícil para qualquer expressar sentimentos perto dele, principalmente diretamente para ele. Mas posso dizer que conseguir muitas vezes pular esse muro e expressar o que sentia por ele, que ele se foi sabendo o quanto eu o amava.
A distância de tudo, entretanto, é traiçoeira e ainda sinto falta da despedida, de um abraço, de uma palavra que não ouvi ou de um sorriso que falasse no silêncio... Não sei se sinto falta dele simplesmente, ou de algo que me confirme que é verdade que ele se foi. 
Minha vida continua, meus planos e o futuro que estou construindo. Mas há essa presença constante de um vazio dolorido...

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