terça-feira, 19 de outubro de 2010

Brafricalidade


Um dos encantos de se passar tanto tempo longe de casa são as coisas que aprendemos uns dos outros em terras estrangeiras. Moçambique tem muitas semelhanças com o Brasil. Em parte pelo legado dos portugueses e em parte pelas nossas raízes africanas. Não posso dizer que as idéias mágicas que rodeiam as coincidências da vida não estão presentes no Brasil, mesmo com tanta ciência divulgada na televisão e em revistas. Não falo daquele brasileiro urbanóide que já incorporou mais da cultura estadunidense do que da brasileira. Mas daquele das pequenas cidades que ainda reserva um tempo seu para rezar por sua religião e precisa se benzer quando muitos acontecimentos ruins se sucedem em sua vida... 
Não posso dizer que todo brasileiro tem medo do escuro porque imagina os fantasmas com os quais pode se esbarrar como os moçambicanos. Mas também não posso dizer que desconheço brasileiros que assim são. 
Mesmo com todo o descaramento do brasileiro no modo de falar e de se vestir ou dançar que ainda se diferencia muito de certa formalidade moçambicana, os moçambicanos são francos e calorosos, não pensam duas vezes em apertar sua mão, dar-lhe um abraço, dançar de dama (coladinho), falar alto e ao mesmo tempo em qualquer lugar público.
Em muitos aspectos, essa franqueza é ainda mais evidente do que com os brasileiros. Não hesitam em dizer que essa roupa não combina, que se está ganhando ou perdendo peso, que se está interessado em você e quer seu telefone... Por outro lado tem seus tabus: mulher grávida não fala sobre a gravidez ou não se fala sobre fantasmas ou espíritos (embora todos acreditem)... Nos dois casos, é pra não atrair nada de ruim.
O fascínio que o moçambicano tem pelas novelas brasileiras e com as perguntas que me fazem sobre a realidade no Brasil às vezes me causa impressão de que a terra verde e amarela se tornou uma espécie de jardim do éden onde as pessoas são tão parecidas com as pessoas aqui, mas o país já oferece condições muito melhores que Moçambique. Lamentam aqui que o brasileiro nunca mencione na televisão a irmandade entre os países com origens semelhantes e que falam a mesma língua.
E eu daqui do meu lado, lamento também essa realidade principalmente pelo tanto que o brasileiro aprenderia com a alegria moçambicana que ainda pára para um bom dia demorado contando como vai a vida, que nos dissabores da vida apóia incondicionalmente o vizinho seja ele familiar ou não. Assim como o moçambicano aprenderia a tirar proveito de suas crenças e da ciência sem ignorar esta última com tanta veemência, seria menos passivo diante dos problemas (embora nós ainda estejamos caminhando nesse aspecto também)...
Mas eu também gostaria que essas trocas fossem aprendizados somente, sem alienação, sem negar de onde vieram e se esquecerem quem são, como fizemos nós brasileiros com nossos índios e como alguns moçambicanos já mostram o sufocamento da cultura nacional em detrimento da estrangeira... Não custa nada sonhar.

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