segunda-feira, 18 de abril de 2011

Nos meus braços

De vez em quando assisto ou leio algo sobre a importância do abraço, daquele simples gesto de oferecer o seu aconchego à alguém para demonstrar que gosta, que se importa, que sente saudade, que perdoa, que quer bem. Que o calor desse momento cura feridas do coração, conforta, alivia, faz sorrir, salva a vida de bebês, fortalece as defesas do corpo. E hoje depois de tantos abraços recebidos ao reencontrar amigos e família, senti o coração ansioso ao arrumar os livros para mais uma jornada fora da minha terra. "Depois de tantos abraços?", pensei... Pensei em quem gostaria de abraçar nesse momento e sem que percebesse meus braços se cruzaram no peito e minhas mãos estavam nos ombros enquanto minha cabeça se apoiava no meu ombro. Eu estava me abraçando... e me acalmei. Era o abraço de que precisava naquele momento. E me perguntei quantas vezes já tinha me abraçado e nem sequer me lembrava de já o ter feito antes.
Algo tão simples que pode ser feito a qualquer momento e sem a intenção de suprir a ausência de outras pessoas, mas de abraçar você mesmo, aquela pessoa que aprendeu a se olhar com carinho, rir de si mesmo, admirar as próprias batalhas, aspirar os próprios sonhos, que ama, odeia, perdoa, a criança e o adulto que vivem dentro de si, esses que sempre precisam um do outro para viver melhor, mas que nem sempre se entendem, por que não consolar um ao outro? O abraço silencioso que diz sem palavras que entende, que tudo vai ficar bem, que ama e que admira, que as respostas virão, que você não precisa estar certo o tempo todo, que precisa ter mais paciência, de mais ternura, que precisa parar de olhar apenas para fora e olhar para dentro uns instantes. Só para lembrar também de que nos grandes desafios da vida podemos até ter companhia, mas que sempre estamos sozinhos assim como chegamos e como vamos deixar esse mundo, e que precisamos ser também nossos melhores amigos e aprender a desfrutar da nossa própria presença. Nenhum homem é uma ilha, mas a vida é uma jornada de superações solitárias e se não apreciarmos quem somos, quem é que vai?
Gentileza gera gentileza. Abrace-se hoje!

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Casa

Estou com tantos sentimentos e emoções dentro de mim que está difícil falar sobre eles... O chegar e o partir só é mais simples quando se está de férias (sem mencionar as exceções a essas aí também): um mês passeando e rotina de novo. "Qualquer dia a gente se vê" parece que é um eufemismo para "quem sabe um dia?" e nada mais é do que uma sentença de que o abandono é certo. Isso em se falando de partir... Quando se fala em chegar, depois de deixar aquele lar que se construiu e a nova família que cativou, é olhar de novo para a velha família que ficou e os velhos amigos que se cultivou, mas que nada conhecem desse novo eu que retornou... Esse novo ser tem a cara do velho, mas um olhar novo, mesmo coração, mas novas canções, mesmo sorriso, mas novas gargalhadas. Traz na mala não só novas histórias, mas novos horizontes. Vem com o coração cheio de novos irmãos, irmãs, pais, mães, filhos e filhas, tios, tias, primos, amores: amigos que foram os responsáveis pelo lar tão longe do lar, mas que não deixa de ser lar.
Não é preciso muito tempo de pé na estrada para se perceber que não são as paisagens que fazem uma boa viagem, mas as pessoas que cruzam nosso caminho. E o viajante vai aprendendo que a casa está no peito, carregada de lembranças que são o único e verdadeiro lar que possui: nem fotografias, nem camisetas, nem colares...
Por isso é tão difícil dizer adeus. São famílias de quem nos despedimos para encontrar outras.  E nem por isso é mais fácil chegar, encontrar quem se ama depois de tanta estrada precisa do mesmo coração aberto de quem foi explorar o desconhecido: procurar entender o diferente e compreender quando não te compreendem...
Mas cada passo em direção a encontros ou despedidas mesmo tendo essa forte sensação de superação, sempre acompanhada de dor, saudade, alegria e surpresa, parece que aumenta a capacidade de sentir, de amar como se expandisse o coração para que ele bombeie calor para tantos familiares espalhados em pontos diferentes do mundo.
Aqui estou eu fazendo isso: abraçando os que estão perto e nas palavras pulsando o calor da saudade para os que estão em outras terras e outros oceanos...

quarta-feira, 9 de março de 2011

Entre a terra e a agua...

De volta ao ponto no oceano, pequena ilha do Caribe, Saint Vincent, terra umida e quente, musical, cheirosa e sorridente...
Cheguei aqui ha quase duas semanas, finalmente uma pausa verdadeira, um lugar familiar, uma zona de transicao entre a Africa e o Brasil, para voltar aos poucos sem tropecar. Cheguei aqui e lembrei o que e relaxar...
A verdade e que nao e facil chegar, assim como nao e facil deixar. Digo deixar e nao partir, porque este segundo sim, e facil, simples, tao cheio de esperancas e expectativas. Mas o deixar aperta, sufoca, cria o vazio que toda lembranca ecoa com uma ponta de alegria, dor e saudade.
O Caribe para mim e o pantanal: um lugar entre a terra e a agua. Nem Brasil, nem Africa. Nem casa, nem rua. Nem ferias, nem trabalho... Mais umas semanas nesse pantano indistinto soa como sala de espera, camarim e por que nao dizer um utero?...
Com poucas palavras para continuar, deixo aqui um poema que escrevi uns dias antes de sair de Mocambique...
O monte virou planicie
Como dunas de areia
a caminhar com o vento
Pouco a pouco a passar,
diminui e agora a cessar.
A montanha so fica na lembranca
Depois de subi-la, e collina...
Uma escada de tres degraus
a uma piscina de bonanca.
De mestres a marionetes
O coracao para, palpita, aquece
Brinca com a mente
a sambar com polka
a disfarcar quando o caos floresce.
A trilha do delirio ao nirvana
se completa e retorna
Num ritmo viril, gentil e constante
Cobre de louros o destino
Que vibra e avanca no horizonte
Sempre alem daquilo que domino
A lembrar do pulso forte de viajante
Escolhas a moldar o caminho
Fe guerreira a mover outro monte
Escaladas iluminadas ao infinito e avante.


sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Pausa

Antes de um mergulho, e preciso parar e respirar...
Para se formar uma frase e preciso espacos...
Para compor uma musica, pausas...
Pausa para respirar.
Mas ainda com o pe na estrada.
em Londres.
Muitas pessoas, muitos carros, muito frio...
Muita tecnologia, muito barulho, sem mosquitos...
Muitas vozes, pontualidade e espaco pessoal...

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Acentos e assentos

"Ja estou com o pe nessa estrada, qualquer dia a gente se ve. 
Sei que nada sera como antes amanha..."
Aqui estou eu de novo depois de um mes sem escrever. Ja deu para perceber que a acentuacao esta completamente ausente dessa postagem, isso gracas a bencao de ter acesso a internet via cyber cafe e nao do meu proprio computador que sucumbiu aos inumeros e constantes ataques de virus africanos e outras avarias, e apos muitas batalhas ora vencidas ora perdidas, o vendi a uma pessoa que poderia restaurar um pouco de dignidade ao tempo de vida que ainda lhe resta.
Entao tenho que levantar as maos para o ceu que tenho net, mas aceitar as limitacoes da mesma.
Nao poder acentuar meu texto e uma ironia do destino neste momento. Porque sinto que nao consigo mesmo acentuar o que e e foi mais significativo para mim nesse tempo na Africa, que esta com dias contados para acabar. Sinto que a acentuacao desaparece mesmo que escreva longos textos sobre isso. 
Nao posso expressar tudo o que sinto e agradeco seja para as pessoas de longe, seja para as pessoas de perto. Mas aqui estou. Assentos reservados para sair da Africa. Apenas dois dias a mais em Inhambane. Quatro a mais em Mocambique. E seis de Africa... 
Daqui pra frente, muitos assentos, assentar-me tambem e possivel, ja que agora pude me acentuar imensamente... 
Agradeco a todos, a tudo, por acentos, espacos e assentos.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Online

Conectar. Olhar as pessoas com mais calma, aceitação, respeito. Concentrar-se no presente e menos no futuro. A olhar para dentro ver medos sem me assustar. Olhar e realmente enxergar. Sentir o sorriso ou chorar...
Desconectar. Enquanto a "África" dava a sua contribuição no péssimo acesso à internet por aqui, eu aprendi a desconectar... Deixar-se criar um hábito, mas não que dite regras como se fosse ele uma necessidade. Deixar que as emoções tomem conta e depois dizer a elas quem manda. Deixar somente... deixar... 
Entre conexão e desconexão, fez-se uma dança que fluiu no tempo numa combinação de lágrimas, sorrisos e silêncio.
A música está quase no fim. "Deixe-me ir, preciso andar", apreciar e vivenciar antes do ritmo cessar.

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