O ator olha impacientemente no espelhinho que traz no bolso e procura acertar todas as falhas da barba desenhada com tinta no rosto. O suor escorre em parte de nervoso, em parte do calor que a sombra do cajueiro não consegue aliviar. Ouve as vozes atrás do tecido escuro que esconde os bastidores, a platéia mantém os olhos atentos nos cantos do grande pano e conversa impacientemente entre si... Entra o ator, todos se calam. As risadas começam. As histórias são sempre da vida africana sempre rica de fatos muitas vezes cruéis ou no mínimo tristes. Mas são risadas que se ouvem na platéia, sempre entre as pausas quando uma fala os faz pensar.
As mamaes arrumam as capulanas todas combinando entre si enquanto cada uma entoa uma canção para que juntas escolham qual vão dançar. Arrumam-se em fila e aguardam o sinal. A platéia as observa e silencia. Ao sinal, uma delas de voz penetrante inicia o cântico e as outras respondem. Entram em ritmo uniforme dum ensaio de vida inteira. As mãos grossas e calejadas do trabalho diário batem palmas e ditam o ritmo da dança. Algumas pessoas na platéia começam a repetir a canção formando um coro contagiante. A música é alegre e canta a mulher que sozinha teve que criar sete filhos depois que o marido faleceu de SIDA.
Assim é a arte na África. Presente, diária, forte e tradicional. São todos atores, cantores, dançarinos. Artesãos, sim, estão em menor número. Mas não há quem escape da arte. Essa que fala sempre o real em voz suave, ritmo marcante, passos e quadris soltos, anedotas em meio a caras e bocas, cores vivas e brilhantes, formas dignas de um museu de arte em qualquer lugar do mundo.

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