quinta-feira, 30 de setembro de 2010

No meio do caminho

No meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra
(Carlos Drummond de Andrade)

Há sempre uma surpresa a cada esquina
O sorriso maroto e voz suave
Presentes e brincadeiras sem hora
Ouço a voz de dos Anjos agora
“O beijo amigo - a véspera do escarro”
Como anúncio vil a um incauto
Que segue firme a tropeçar em morro
E amortece os olhos no súbito
Da mutação vulgar e matreira
Despede-se rarefeita a pueril chama
Dando lugar à prima frustração
No emaranhado de entranha que flama.
(Isabela Q. de Oliveira)

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Prêmio Mulher de Lenço

Ontem tivemos no Ajuda às Crianças o Prêmio Mulher de Lenço. O projeto nem sempre é justo na hora de compensar o trabalho de seus funcionários. Numa fase em que o cansaço e o desânimo estavam prevalecendo em quase todos, tive a idéia de fazer um encontro descontraído com a equipe em que todos receberiam pequenas premiações por características irrelevantes, mas marcantes de suas personalidades. Já sabia também que a direção estava considerando um aumento de salário.


Fizemos uma publicidade dois dias antes: “Vem aí: Prêmio Mulher de Lenço. Aguarde...” Ninguém sabia do que se tratava e já estavam mortos de curiosidade. Fizemos a premiação depois da reunião semanal do projeto. E a surpresa foi geral. Não só ninguém esperava que a premiação fosse de pura brincadeira, como também não esperavam serem premiados pelas categorias que criamos para cada um. Mantivemos uma pausa sempre depois de anunciar a categoria para que eles tentassem adivinhar quem era o ganhador e acertaram a maioria...


Categorias do tipo “melhor motorista em marcha lenta: querendo apreciar paisagens ou cumprimentar pessoas na rua, pegue carona”, “melhor não-comedor de ovos: se o lanche for ovo, fique perto dele para ganhar mais um”, “melhor comedor de coisas estranhas: ratos, larvas e tudo o que ninguém nunca quis comer” e etc foram algumas das distribuídas. Dentre muitos risos e sugestões para próximas premiações, fomos jantar fora e lhes foi anunciado que teriam um aumento de salário.


Foi uma noite de lua cheia e farta de alegria.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Cultura 5 - Arte

O ator olha impacientemente no espelhinho que traz no bolso e procura acertar todas as falhas da barba desenhada com tinta no rosto. O suor escorre em parte de nervoso, em parte do calor que a sombra do cajueiro não consegue aliviar. Ouve as vozes atrás do tecido escuro que esconde os bastidores, a platéia mantém os olhos atentos nos cantos do grande pano e conversa impacientemente entre si... Entra o ator, todos se calam. As risadas começam. As histórias são sempre da vida africana sempre rica de fatos muitas vezes cruéis ou no mínimo tristes. Mas são risadas que se ouvem na platéia, sempre entre as pausas quando uma fala os faz pensar.
As mamaes arrumam as capulanas todas combinando entre si enquanto cada uma entoa uma canção para que juntas escolham qual vão dançar. Arrumam-se em fila e aguardam o sinal. A platéia as observa e silencia. Ao sinal, uma delas de voz penetrante inicia o cântico e as outras respondem. Entram em ritmo uniforme dum ensaio de vida inteira. As mãos grossas e calejadas do trabalho diário batem palmas e ditam o ritmo da dança. Algumas pessoas na platéia começam a repetir a canção formando um coro contagiante. A música é alegre e canta a mulher que sozinha teve que criar sete filhos depois que o marido faleceu de SIDA.
Assim é a arte na África. Presente, diária, forte e tradicional. São todos atores, cantores, dançarinos. Artesãos, sim, estão em menor número. Mas não há quem escape da arte. Essa que fala sempre o real em voz suave, ritmo marcante, passos e quadris soltos, anedotas em meio a caras e bocas, cores vivas e brilhantes, formas dignas de um museu de arte em qualquer lugar do mundo.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Dia de Alegria

O frio já começa a deixar Inhambane
O movimento enche as ruas de cores
O Sol abre majestoso o dia na terra da boa gente
Os sorrisos e vozes cantam da vida sabores
E danças fazem a terra pulsar num abraço clemente
O encontro traz calor, força e alegria
Som de risos, odores doces, poeira ao vento
Os pés, senhores de si, vibram em magia 
Mulheres entoam os hinos de ode e alento
Lá vem os noivos, aniversariantes ou madrinhas
Pés no chão, prendas na mão e porte de rainhas
A vida dá feridas, mas seguem e deixam
Setembro na África se abre e elas despejam
Com pérolas no rosto e olhar disposto
Mamaes a semear a essência e a viver no oposto.


Mamaes dançando para entregar prenda aos noivos

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O meio

Ontem completou seis meses que aportei em terras africanas e hoje seis meses de Inhambane. Fico feliz de ter escolhido ficar por um ano, pois finalmente me sinto em casa. Finalmente sinto que consigo trabalhar conhecendo mais onde estou pisando. Finalmente as amizades que fiz vão se solidificando e tenho a tranqüilidade de desfrutá-las. A cultura com todos seus impactos e encantos no meu coração ganha mais e mais o ar de “lar”. Fecha-se um ciclo, meus colegas de “seis meses” se foram, novos chegaram. Novas rotinas em casa e personalidades para se adaptarem, mas agora estou na posição de dizer como funciona ao invés de ter que aceitar o que já estava estabelecido. Em contraste com a realidade de paz está a crua sensação de que estou em contagem regressiva. Os meses agora se contam menos seis, cinco, quatro, três... Sair da África. Nem consigo alcançar ainda os tantos modos de se sentir essa saída.



Foram seis meses e pareceram seis anos ou seis dias. Muito rápido e muito intenso. Ainda tenho seis meses de África. Saint Vincent foi a infância, escola, preparação. Os seis primeiros meses são a adolescência: descobertas em meio à passionalidade, impulsividade, deslumbramento e drama. Agora cheguei à idade adulta. Desfruto de tudo nessa terra iluminada“sem me precipitar e nem perder a hora” como diria Ana Carolina. “Outro tempo começou pra mim agora...” Amém.

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