Aqui a morte é uma presença constante. Claro que em todo lugar do mundo. Mas aqui 90% das causas de morte são doenças que poderiam ser tratadas e a vida prolongada. Algumas das quais em países mais desenvolvidos, são prevenidas ou tratadas com eficiência, como cardiopatias, trombose, derrame cerebral ou pneumonia. Mas claro que as maiores responsáveis ainda são a malária e a SIDA. Esta última, se não diagnosticada, somente caracteriza uma pessoa como de saúde ruim pelas constantes enfermidades que a acometem. Aqui além dos tratamentos serem precários, demora-se muito a levar as pessoas a um atendimento médico. O que é mais um mal-estar, mais uma febre ou dores se muitas já foram sentidas e aliviadas sem auxílio especializado? Apenas mais um custo para se transportar o doente... Então se espera para ver no que vai dar.
Desde que cheguei, já houve dez falecimentos na vizinhança ou com pessoas conhecidas. Havia ido a um velório no início do mês e hoje de manhã participei de mais um funeral e meu primeiro aqui. E mais uma vez me impressionou a mobilização que é feita em torno do enlutado. Em apenas algumas horas, parentes, amigos e conhecidos já ocupam a casa do falecido dando todo atendimento necessário aos familiares. Desde a fazer a comida até os preparativos do enterro. Todos passam a dar toda a assistência necessária inclusive dinheiro. Após o velório e enterro, um grupo de familiares e amigos se reveza para auxiliar a família enlutada, ficando muitas vezes hospedado na casa. Deixam seus trabalhos, sua própria casa e família para cuidar da outra pessoa. O “depósito das flores” como se chama quando se retorna ao túmulo para orações, colocar flores e dinheiro para os familiares, acontece no 7º dia após a morte, no primeiro mês, aos seis meses e um ano. Cada vez que o “depósito” ocorre, as pessoas levam dinheiro, mantimentos e voltam a se reunir ao redor do enlutado para dá-lhe apoio. Dentre alguns costumes nessas socializações estão: não se colocar as mãos nos bolsos (demonstra falta de respeito), as mulheres devem estar de capulana (tecido que usam como saia), cantar no velório em tom solene (sempre se canta em qualquer encontro), andar de preto durante o primeiro ano do falecimento (pode ser verde, se for da religião Zione, que é semelhante ao nosso candomblé), etc.
Apesar das diversas religiões cristãs e a mulçumana que já são em maioria, o moçambicano ainda traz arraigado as crenças na religião tradicional africana. Essa, por sua vez, crê que os mortos somente passaram para outro lado além deste terreno e devem sempre ser respeitados, caso contrário, podem simplesmente voltarem a exigir este respeito. Isso explica uma cerimônia a que fui de descerramento de um túmulo de uma pessoa que já havia morrido há 28 anos. Acompanhando essa crença está a tradição dos clãs que ainda é muito forte. Por isso, a reunião de familiares e amigos acontece com muita freqüência não somente na morte, mas em qualquer ocasião. As celebrações são em torno de nascimentos, bodas, aniversários. Aqui em Inhambane isso ainda é muito comum. Há um ditado em Guitonga (língua daqui) que diz: Guwonana nya valongo gu nga pimi khu gufa basi. Significando algo como: “que os encontros de família não sejam apenas por ocasião da morte” ou um equivalente “na morte e na boda, verás quem te honra”.
É uma das características que me encanta aqui nessa terra: as pessoas ainda são mais importantes que as coisas. Ser vale mais que ter.