quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Cultura 4 - Luto

Aqui a morte é uma presença constante. Claro que em todo lugar do mundo. Mas aqui 90% das causas de morte são doenças que poderiam ser tratadas e a vida prolongada. Algumas das quais em países mais desenvolvidos, são prevenidas ou tratadas com eficiência, como cardiopatias, trombose, derrame cerebral ou pneumonia. Mas claro que as maiores responsáveis ainda são a malária e a SIDA. Esta última, se não diagnosticada, somente caracteriza uma pessoa como de saúde ruim pelas constantes enfermidades que a acometem. Aqui além dos tratamentos serem precários, demora-se muito a levar as pessoas a um atendimento médico. O que é mais um mal-estar, mais uma febre ou dores se muitas já foram sentidas e aliviadas sem auxílio especializado? Apenas mais um custo para se transportar o doente... Então se espera para ver no que vai dar.
Desde que cheguei, já houve dez falecimentos na vizinhança ou com pessoas conhecidas. Havia ido a um velório no início do mês e hoje de manhã participei de mais um funeral e meu primeiro aqui. E mais uma vez me impressionou a mobilização que é feita em torno do enlutado. Em apenas algumas horas, parentes, amigos e conhecidos já ocupam a casa do falecido dando todo atendimento necessário aos familiares. Desde a fazer a comida até os preparativos do enterro. Todos passam a dar toda a assistência necessária inclusive dinheiro. Após o velório e enterro, um grupo de familiares e amigos se reveza para auxiliar a família enlutada, ficando muitas vezes hospedado na casa. Deixam seus trabalhos, sua própria casa e família para cuidar da outra pessoa. O “depósito das flores” como se chama quando se retorna ao túmulo para orações, colocar flores e dinheiro para os familiares, acontece no 7º dia após a morte, no primeiro mês, aos seis meses e um ano. Cada vez que o “depósito” ocorre, as pessoas levam dinheiro, mantimentos e voltam a se reunir ao redor do enlutado para dá-lhe apoio. Dentre alguns costumes nessas socializações estão: não se colocar as mãos nos bolsos (demonstra falta de respeito), as mulheres devem estar de capulana (tecido que usam como saia), cantar no velório em tom solene (sempre se canta em qualquer encontro), andar de preto durante o primeiro ano do falecimento (pode ser verde, se for da religião Zione, que é semelhante ao nosso candomblé), etc.
Apesar das diversas religiões cristãs e a mulçumana que já são em maioria, o moçambicano ainda traz arraigado as crenças na religião tradicional africana. Essa, por sua vez, crê que os mortos somente passaram para outro lado além deste terreno e devem sempre ser respeitados, caso contrário, podem simplesmente voltarem a exigir este respeito. Isso explica uma cerimônia a que fui de descerramento de um túmulo de uma pessoa que já havia morrido há 28 anos. Acompanhando essa crença está a tradição dos clãs que ainda é muito forte. Por isso, a reunião de familiares e amigos acontece com muita freqüência não somente na morte, mas em qualquer ocasião. As celebrações são em torno de nascimentos, bodas, aniversários. Aqui em Inhambane isso ainda é muito comum. Há um ditado em Guitonga (língua daqui) que diz: Guwonana nya valongo gu nga pimi khu gufa basi. Significando algo como: “que os encontros de família não sejam apenas por ocasião da morte” ou um equivalente “na morte e na boda, verás quem te honra”.
É uma das características que me encanta aqui nessa terra: as pessoas ainda são mais importantes que as coisas. Ser vale mais que ter. 

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Indas e Vindas

 O dia-a-dia trabalhando longe do próprio país significa muitos encontros e despedidas que começa desde o momento em que se sai de casa e de muitos outros momentos com pessoas com quem se encontra pelo caminho e que nos marcam com maior ou menor intensidade. Um dos motivos pelos quais as despedidas doem tanto aqui é que não se tem a menor idéia se veremos aquelas pessoas novamente... Claro que sempre é possível se planejar uma viagem, mesmo a médio prazo para um país distante para um reencontro, mas sabemos também que a vida dá muitas voltas e quem sai daqui pretende voltar para casa ou outro lugar para chamá-lo de lar e nessa escolha tudo pode acontecer: um trabalho sem previsão de férias, filhos, casamento, doença etc. Aqui o adeus sempre carrega muita emoção e um desejo de que o outro siga pela vida feliz, pois no íntimo sabemos que a chance de acompanharmos outro momento com essa pessoa é pequena. Assim é mais uma vez este mês de agosto começa e vai terminar cheio de abraços apertados e lágrimas nos olhos pelos laços criados com esses transeuntes de nossas vidas que vão seguir suas vidas longe de nós. Aqui vai meu abraço e carinho para alguns desses...
Mari, sempre cheias de sorrisos,
paulistana até o último fio de cabelo!
Nos vemos no Brasil!

Veni, conosco por seis meses em I'bane, uma das pessoas
mais doces que já conheci! Por você visito a Alemanha!
 Mau, casa vai ficar mais vazia de sorrisos e chilli mexa!
Nos vemos novamente em breve, México ou Brasil, quem sabe?
João, amigo, irmão, meu pólo sul rsrsrsrssr Que tenhas um retorno feliz!!
Nos vemos no Brasil no sul ou norte! Fica com Deus!





quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Educação 1 - Pensar na pré-escola


Trabalhar com pré-escolas em Moçambique é um trabalho que exige sempre que se lembre as pessoas a importância da criança passar por esse estágio antes de já entrar nas salas de aula da escola primária. É aqui que a criança muitas vezes aprende o português (já que a primeira língua que aprendem são as africanas), algo que professor de escola primária não vai se preocupar, mesmo com as notas estranhamente baixas em todas as disciplinas. A idéia é a pré-escola seja auto-suficiente, mantida pela própria comunidade. Para isso precisam pagar uma taxa simbólica do equivalente a R$1,20, para subsídio do professor. A realidade aqui permite que esse valor seja pago sem muito sacrifício da família, mas eles simplesmente se recusam a pagar. Entra em questão aí a ajuda que qualquer projeto ou pessoa física ofereça à pré-escola ou associação: a comunidade não se acha que deve pagar mais nada e se nega a colaborar. Isso não é via de regra, em algumas comunidades, ainda temos alguma colaboração dos pais, mas bem poucas. A foto em questão é da campanha de higiene que estamos realizando em cada escolinha. O dinheiro vem de doação de amigos e família.Moçambique há muita ajuda internacional oferecendo soluções prontas para todos os problemas. Mas raríssimo os que oferecem a oportunidade das pessoas procurarem soluções por si mesmas. Isso não se vê muito por aqui: a maioria das vezes, as pessoas cruzam os braços e põem a culpa em alguém, mesmo em casos de vida ou morte. Quando comecei a trabalhar com as pré-escolas, essa questão ainda não tinha ficado muito clara para mim. Mas é lá que vemos essa cultura da passividade sendo implantada ma mente das crianças. Tudo se copia, tudo se repete, nada se responde, nada se escreve... Como não se criar uma sociedade de pessoas que esperam que os outros lhe digam o que fazer? Aqui mais uma vez questiono a se ter muito cuidado quando se diz se vai ajudar alguém... Oferecer soluções pode ser exatamente manter a pessoa em problemas.

domingo, 1 de agosto de 2010

Cultura 3 e Linguagem 2 - Colonizados e civilizados

Vindo de um país colonizado como o Brasil, acredito que fica mais evidente a desvalia com que o moçambicano se refere à própria cultura. Nós brasileiros, em geral, ainda acreditamos que o que vem de fora é melhor ao invés de valorizar nossa imensa variedade cultural, nossas diversas raízes e que são as coisas que nos fazem únicos no mundo. Ao invés disso, caímos no erro de acreditar que somos piores que os colonizadores, os verdadeiros “civilizados”, utilizando essa palavra no sentido mais popular de adiantamento cultural. Não deixo de considerar que existem outras questões por detrás, por exemplo, da imposição de uma língua que não é a de origem por exemplo. Acho que ainda não havia parado para me questionar seriamente sobre o quanto isso afeta a cultura positiva e negativamente já que vim de um país de língua unificada em que as línguas indígenas brasileiras são relegadas a recônditos do nosso país: nós não nos misturamos, não as conhecemos, mas se seus falantes querem ser “civilizados”, tem que aprender a “nossa” língua. Aqui em Moçambique dentro de um mesmo estado (província) podem se falar até cinco línguas diferentes. Normalmente numa cidade existe uma maioria falando uma única, mas sempre há pessoas falando outras línguas. Nas áreas mais afastadas do centro urbano (mas não muito, a 20 minutos de caminhada), encontramos pessoas (crianças, adultos, idosos) que não falam nada de português. Dá para imaginar a dificuldade de unificar um país inteiro do tamanho de Moçambique em educação e direitos e deveres dos cidadãos com esse porém da linguagem. Seria preciso uma unificação seja do português, seja de uma das línguas bantu (mesmo assim, qual seria o critério de escolha com tantas espalhadas pelo país?) para que o país pudesse dar um salto de alfabetização e a conseqüente compreensão com o que se tem direito ou não. Tudo o que o camponês que não fala português sabe é que o governo e suas leis não chegam até ele. Mas como disse Paulo Freire, unificação lingüística leva tempo e tem que ser uma decisão política. Algo que acredito que não interessa ao governo de Moçambique, já que preferem impor uma língua falada em outras partes do mundo do que adotar uma que só os locais entenderiam. Lembrando de que Moçambique ainda está totalmente apoiado em ajuda internacional para manter esse país e suas necessidades. Sendo algo atualmente desnecessário já se está sem guerras, com a riqueza de agricultura, caça e pesca que têm no país, sem falar no petróleo, ainda inexplorado nessa terra.
Os moçambicanos e brasileiros são irmãos, filhos de uma colonização portuguesa. Mas também irmãos de muitos outros, de toda a África, da América Latina e parte da Ásia, Oceania, todos com países e pessoas colonizados e ensinados que são inferiores. Acho que um escrito como esse mais parece mais um falando sobre colonização. Mas quando se trabalha próximo às pessoas tentando fazer com que compreendam não precisam ser iguais aos colonizadores para serem melhores e de que sua cultura é linda exatamente por ser diferente e tudo que obtemos como resposta é que “nós, negros, não temos jeito, somos corruptos e burros”. É frustrante. Não só porque não atingimos o objetivo de obter sua compreensão (como fazer alguém ver o que está além de sua vivência diária?), mas porque temos a lembrança no coração daqueles lá do outro lado mundo, próximos a nossa casa que fazem as coisas de qualquer jeito porque “brasileiro sempre dá um jeitinho”, mesmo se for perpetuando o pensamento do colonizador.

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