terça-feira, 29 de setembro de 2009

Aspiração e Transpiração



Querer algo e conseguí-lo com muito suor é o que dá um gosto especial as nossas conquistas. É próprio da natureza humana esse poço sem fundo de desejos e aspirações. Independente do que se quer e de como se tenta conseguir o que se quer. Se se aspira apenas uma coisa ou várias ao mesmo tempo, se as aspirações duram anos ou dias. O não-tentar realizar um desejo por si só já é outra aspiração que vem disfarçada de uma mais aceitável.
O verdadeiro querer humano vem sempre acompanhado de algo para realizá-lo. Mesmo aqueles que se aprisionam no medo do novo e do risco estão sob a tutela do querer ficar no mesmo lugar.
Então quando fazemos escolhas de estudos, trabalho, constituir uma família, mudar de cidade ou de casa, há sempre duas aspirações envolvidas: uma superficial - aquela que logo nos vem à cabeça - e outra mais profunda que podemos passar anos sem saber qual é. 
O trabalho voluntário é algo que há muito vem despertado o interesse de estudiosos da psique humana por ser algo que, materialmente, não há ganho regular e muito menos abundante. Considerando que na sociedade que vivemos o ganho material não só é necessário - pelo menos para a subsistência - como estimulado excessivamente, o que levaria pessoas a viver com básico para trabalhar para ajudar outras pessoas? O que aspira uma pessoa que vive pelo ideal de melhorar um pouco da vida de uma pessoa de cada vez? 
Há muito o que se dizer sobre as aspirações do voluntário de acordo com as teorias psicológicas: desde o simples compensar uma culpa por não ter ajudado alguém que ama até de um desejo sádico de poder sobre outras pessoas. Durante muito tempo eu vivi o dilema de analisar as motivações do voluntário sem perceber que me aprisionava atrás do hábito adquirido na faculdade de psicologia de sempre questionar os porquês de nossos atos e do medo de aceitar viver com muito pouco. Este segundo foi mais fácil de superar...
Acredito que o momento de superar o tal hábito foi quando vi uma pessoa em situação de necessidade mais básica impossível: sem ter o que comer e sem saber onde e como conseguir comida. Foi quando um amigo falou: se vir uma necessidade, atenda! E ele assim o fez ao, não só dar comida, como ensinar essa pessoa como cultivar sua comida e como ter um ganho regular para se sustentar.
Essa simples frase foi o estímulo que precisava para superar o dilema racional. Mais do que a fome ou vestuário, a principal necessidade do mundo é de saber: se as pessoas soubessem o que fazer para não passar fome, o fariam! Comecei a me perguntar pra que me questionar sobre os porquês de alguém ajudar outra pessoa se no final das contas o mais importante era o resultado da ação e não sua razão intrínseca!


Foi quando o meu querer falou mais alto. No entanto, era só o início da jornada. Pois detrás do trabalho do voluntário há muita transpiração e se esse não for a real aspiração muitas oportunidades aparecerão para se desistir. Esse ainda é um trabalho que desperta desconfianças por não ter como objetivo lucro pessoal. Além do erro de compreensão comum entre trabalho voluntário e assistencialismo - que são bem diferentes - gerar críticas e exigências de que temos obrigação de dar algo material (que é o assistencialismo)...
Apesar de não ser o objetivo principal, mas o trabalho voluntário acaba por ser uma espécie de contracultura por nos fazer refletir os valores capitalistas. Se é reacionário e se está totalmente atrelado à cultura capitalista ou não é algo que, ao menos, surgiu com o intuito de minimizar os efeitos do capitalismo colonialista. O rastro de pobreza e miséria que a cultura do lucro deixou e continua deixando é tão grande que torna o voluntário um grão de areia lutando contra o vento. Mas se aspiramos a melhoria, precisamos entender que existem brisas a nosso favor e que nosso suor planta sementes ora de frutos e legumes ora motivação no coração das pessoas.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

A very blue sky



Ontem foi o primeiro dia em que me senti num país estrangeiro. Pode parecer estranho afinal faz três semanas que estou aqui. Mas viver nesse regime de alojamento estudantil e num programa intenso de treinamento põe a pessoa numa redoma isolando-a do mundo. 
Até então era só uma convivência com outros estrangeiros. Saímos muito pouco para "ver o mundo lá fora", até porque a RVA fica a quarenta minutos a pé da cidade mais próxima e não existe transporte público para essas bandas, só se chamarmos.
Então chegou o dia da minha primeira aula de Arts & Drama para a comunidade e me vi frente-a-frente com quinze endiabrados adolescentes entre doze e catorze anos falando -entenda-se: tagarelando/ gritando - um dialeto estranho (mas que eles chamam de inglês...) tive vontade de gritar e rir de mim mesma... Putz!
O próprio diretor da escola gritava e agarrava os pimpolhos pela camisa para fazê-los se sentar - só sentassem, porque não se calavam...
Quando saí de lá a vontade de gritar foi sendo substituída por muitos risos.
Há menos de uma hora atrás - eu pensava - eu comentava com João (que também ensina essa disciplina comigo) que o céu estava muito azul pensei no calor, mas lembrei de Belém em que muitos dias o céu fica sem nuvens e sol parece deixar o azul do céu mais azul e por um momento pareceu que estava em casa. É incrível como as semelhanças tem a capacidade de aproximar e as diferenças de afastar... 
Tanto um como o outro é só uma questão de perspectiva: admirar a beleza do azul do céu ou reclamar do calor... Só que mudar de perspectiva exige mexer com sentimentos, o que não é simples...
É enxergar um bando de crianças hiperativas falando uma língua incompreensível como uma situação desesperadora ou vê-la como a oportunidade de aprender que linguagem essas crianças entendem e, quem sabe, criar uma maneira de me comunicar com elas.
Primeira lição da disciplina Arts & Drama: como lidar com diferentes públicos.

domingo, 20 de setembro de 2009

Frenesi




Não há como negar que fazer uma viagem por si só já é um  motivo de muita excitação. Mas viajar para outro país onde você vai não só conviver com a cultura local como vai morar com pessoas de, pelo menos, quinze culturas diferentes da sua é uma situação que demanda um tempinho pra se adaptar e pra gente se acalmar a ponto de nem dormir direito pra não perder nenhuma roda de bate-papo... 
Quando o programa de instrutor de desenvolvimento começou, somou-se a euforia da convivência com o grupo com o cronograma de atividades que é nada mais nada menos do que 70 horas semanais!! Pra se ter uma idéia, nós moramos no mesmo lugar que estudamos e trabalhamos e é, simplesmente, uma correria o dia inteiro! Quando a gente pára, tem tanta coisa pra fazer de trabalhos e planejamentos, além dos assuntos pessoais como falar com a família, escrever no blog :-)), fazer a unha etc, que a gente acaba indo pro mais urgente que são as tarefas do programa. A conclusão é que o tempo pra si é reduzidíssimo. 
Imagine o que é conviver num alojamento em que as pessoas participam das mesmas atividades, você não tem privacidade: fecha-se a porta do quarto e as pessoas batem e entram pra resolver mais um assunto inadiável...
Pelo menos, quando temos folga realmente nos esforçamos pra fazer uma atividade relaxante e divertida. No dia da Indepedência do Brasil, tomamos café da manhã ao ar livre e cantamos o hino nacional. Dia da Independência do México, tivemos um jantar mexicano. Sem falar nos aniversários, cada evento procuramos fazer algo diferente, o que exige bastante criatividade aqui, porque temos recursos limitados para coisas grandes. Mas está aí mais um dos grandes aprendizados que temos aqui: como fazer render os recursos que temos.
O outro, obviamente, é aprender a administrar nosso tempo.
Mas o principal, sem dúvida, é o da aceitação e diplomacia: como lidar com as diferentes culturas, opiniões e atitudes. Na hora da diversão, tudo acaba se resolvendo. Porém o trabalho começou e com ele os desafios são bem maiores... 

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Meu 7º dia em RVA e Welcome Party



Quando completei uma semana em Richmond Vale Academy, quinta-feira passada, deu pra sentir bem como seria minha vida daqui pra frente como Development Instructor: muito trabalho, inclusive braçal, e muita correira. Já tínhamos feito um trabalhinho na horta da escola, mas nada como nesse dia. Foram quatro horas e meia num sol escaldante arrancando mato e plantas e depois revolvendo a terra. A sensação é que nunca havia água suficiente para nos hidratar. 
Por outro lado, é reconfortante trabalhar com várias pessoas executando a mesmo atividade e depois ver nosso trabalho feito. 
À noite tivemos nossa Welcome Party: além do jantar à luz de velas com pizza e coca-cola, improvisamos uma pista de dança. Muita música latina e todo mundo dançando de qualquer jeito. Quem não sabia como dançar, pulava, dançava o que sabia... Além disso, foi bom se arrumar um pouco depois de passar dias e dias suando e se sujando direto, poder colocar uma roupa limpinha, bonita, passar maquiagem! Coisas de meninas... rsrsrsrsrsr

domingo, 6 de setembro de 2009

Hábitos

Acho que a primeira reação que temos ao chegar num lugar novo é perceber aquilo que é diferente do que estamos habituados. Aqui vão algumas situações que passei ou que soube da cultura caribenha...
Tenho que começar pelo inglês deles que é esquisitíssimo. Até chegar em RVA, eu achava que estava muito mal mesmo com meu inglês, porque eu não entendia nada do que o pessoal da imigração ou da companhia aérea de Trinidad e daqui de São Vicente dizia. O inglês daqui é um pouco melhor que o de Trinidad, mas ainda assim, não é fácil de entender, além disso eles sempre falam como se estivessem brigando com você, como eu estava sozinha durante todo o percurso até chegar aqui, eu também comecei a falar brigando srsrsrsrsrsr não sei isso contribuiu para que eu chegasse mais rápido... Finalmente quando cheguei percebi que my english was fine, mas o deles não!
Os homens locais falam com as estrangeiras e fazem os convites mais obscenos que você possa imaginar! É muito comum realmente turistas virem aqui para um turismo sexual com os altos e sorridentes afrodescendentes da ilha. A maioria de nós não está aqui pra isso, mas vá saber a diferença! Além disso, outro hábito de todos aqui, homens e mulheres, é sempre cumprimentar, mesmo que não se conheça, então quando menos se espera pode se receber um convite para um hot sex no caminho para o boteco mais próximo para comprar coca-cola...
Apesar da indiscrição e vulgaridade desses convites e da dança (soko) locais, o povo de São Vicente é, em geral, muito receptivo, caloroso e solícito com estrangeiros. Isso combinado com a paisagem e as muitas possibilidades de passeios ecológicos tornam São Vicente uma ilha que vale muito a pena conhecer.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Saint Vicent and Grenadines e a Richmond Vale Academy


Meu quarto fica no prédio à direita, no terceiro degrau


Após 37 horas viajando, dormindo torta encostada pelos cantos, eu finalmente aterrissara na pequena ilha de São Vicente e Granadinas. Meu coração estava a mil!! Quando saí do pequeno avião, esperava um aeroporto, onde pudesse no mínimo esperar o dia clarear para eu poder fazer alguma coisa - afinal já era madrugada! -, mas o que vi foi um pátio e uma pequena sala com dois guichês com os oficiais da imigração, uma esteira de bagagens e a saída... só! Não, ainda tinha UM telefone, de onde tentei novamente me comunicar com RVA sem sucesso...
Todos foram muito solícitos desde os oficiais da imigração até os seguranças. Foi graças ao segurança da entrada que conseguiu um táxi de confiança dele que me levasse até Richmond - sim, pois ainda tinha isso: não eram todos que traziam até aqui. É outra cidade... E é uma ilha montanhosa, então o caminho é cheio de curvas subidas e descidas. Quando entramos na estrada propriamente dita subindo umas da muitas curvas da estrada, vi o mar do caribe refletindo a luz da lua que estava simplesmente linda! E foi assim o restante do trecho, ora ela iluminava o mar ora os vales maravilhosos... Nem cansada mais me senti!
Quando chegamos, ninguém acordou, após muitas tentativas batendo em muitas portas (e aqui tem muitos quartos), até que Royal acordou. Um pequeno cachorro amarelo fez um escândalo e acordou Szilvia (responsável pela promoção, recrutamento de voluntários, conseguir parceiros etc.)...
Enfim, acordei em Richmond Vale Academy, um lugar incrível pela paisagem e pelas pessoas.
No próximo post já falo sobre o que fazemos aqui.
Agora preciso ir, vou cozinhar meu primeiro jantar para todos em RVA! :-)))

Port of Spain





Port of Spain é a capital de Trinidad, República de Trinidad e Tobago que é um país caribenho bem pertinho da Venezuela e que está comemorando 45 anos de independêcia da Grã-Bretanha. As poucas horas em que fiquei lá pude perceber que é um país que vem lutando para se autoafirmar e onde quer que andássemos no aeroporto havia sempre muitas faixas nacionalistas e de exaltação da nação: "we aspire together, we achieve together", sem falar em numa foto gigantesca do primeiro-ministro e do presidente bem no lounge internacional... Acredito que por tudo isso, tem muita desconfiança com estrangeiros, são frios e cheios de precauções, parece que nunca acreditam totalmente no que você está relatando.
Por tudo isso, assim que pisei lá fiz de tudo para conseguir um vôo mais cedo para São Vicente. O aeroporto é muito desconfortável e com pessoas desconfiadas nem dava pra dizer que ia ficar bem durante a noite como fiquei no Panamá.
Fiz muuuita pressão e consegui um vôo para nove da noite, mas parece que lá é tradição haver atrasos, vi vários vôos em que isso aconteceu. Atrasos assim de duas horas tranquilo e ninguém avisa nada, simplesmente nada acontece e você nem tem pra quem perguntar porque os atententes da empresa só aparecem na hora do embarque e tá todo mundo tão cansado de esperar que só quer saber de embarcar...
Daí chegou a hora: onze e pouco da noite, lá estava eu, finalmente, vindo para São Vicente num daqueles aviões pequenos com hélice que fazem uma barulheira danada e sacodem tanto que parece que vc está numa cadeira de massagem...
Mas não sabia o que iria fazer, pois não tinha conseguido telefonar para ninguém de RVA em Port of Spain, nem e-mail, nada! Daí iria chegar em São Vicente de madrugada, com malas que mal conseguia carregar, sem conhecer ninguém e sem um táxi de confiança (que o pessoal mandaria se eu tivesse conseguido falar com eles)... Iagora, eu pensava...

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

E o momento é agora! No Panamá



Acima: eu já de manhã, pronta pra embarcar para POS e abaixo o aeroporto como estava na hora que fui dormir.
O carinha sentado de blusa listrada também dormiu estatelado nos bancos como eu. rsrsrsrs

Após muita uma longa espera e expectativa, chegou o momento de deixar o Brasil e fazer uma viagem longa em quase todos os sentidos. Longa porque são dias viajando até chegar até São Vicente que é para onde estou indo. Passei uma noite e uma manhã na Cidade do Panamá, uma cidade que gostaria muito de ter conhecido, mas que não valia a pena passar por toda a burocracia de imigração e alfândega e gastar muito com hotel e essas coisas, se ainda fosse 24 ou 48 horas... E o aeroporto de Tocúmen é como todo aeroporto: frio e com atendentes ora educados ora indiferentes. Isso aqui mais parece um shopping do Second Life com muitas lojas puras de labels: Channel, Lacoste, Versace etc. Nada é popular e com a cara de tradição nenhuma aqui... é território internacional e claro, muito influenciado pelo estilo estadunidense. Talvez todos os grandes aeoroportos sejam assim na área de embarque internacional, e eu que esteja conhecendo só agora. Só a parte onde estou -lounge internacional- é enooorme, mais trinta portões, a maioria dos vôos aqui são da Copa Airlines, na tela de chegada e partida só vemos Copa, vez ou outra vemos de outras companhias.
O cartão da companhia telefõnica daqui até que rende: com cinco ou dez dolares vc faz uma ou duas boas ligações internacionais decentes. Vim com crédito da Embratel, mas o numero para ligar daqui do Panamá não funcionou. Então o Brasil Direto deles me deixou na mão. Internet daqui também é bem falha, é cheia de free wi-fi zones, mas a conexão péssima. Resultado: tive que comprar créditos também para conexão wi-fi, lá se foram mais dez dólares...
Consegui dormir umas seis horas durante a noite, o lounge tava quase totalmente vazio: minha mochila foi um pré travesseiro para meu travesseirinho de viagem, minha malinha de mão ficou no pé e assim por diante. Deu pra descansar legal! Pelo menos de manhã, já acordei com bossa nova instrumental ao invés da música "You're beautiful" do James Blunt que tocou umas quinhentas vezes durante a noite porque estava numa propaganda num telão...
Daqui vou para Port of Spain, capital de Trinidad y Tobago e de lá pego um vôo para São Vicente. Não existe vôo direto para lá ou mesmo com escalas e conexões. Temos sempre que ir para um dos países vizinhos como Trinidad y Tobago, Porto Rico, República Dominicana etc. E sempre países da América Central, porque Venezuela, por exemplo é bem perto, mas não tem vôo pra São Vicente.
No próximo post não sei onde vou estar, se em Port of Spain ou - se Deus quiser- em São Vicente, mas do próximo ponto vou explicando melhor porque estou fazendo essa viagem e pra quê...
Ah, detalhe: muita gente aqui realmente usa o chapéu Panamá: moda? empolgação? Mas é engraçado, nunca vi tanto esse chapéu na minha frente como aqui...


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