sábado, 25 de outubro de 2014

Concórdia

Quando criei o blog com esse nome, no coração tinha a citação de São Tomás de Aquino: "a concórdia não é a uniformidade de opiniões, mas a concordância de vontades."
Vendo o cenário das eleições em que parece estar mais evidente o jargão de que "política e religião não se discutem", procurei examinar mais de perto o que me incomodava tanto nesse jargão e nesse cenário.
Defender uma ideia que se pensa ser boa para todos, seja política, seja religiosa, é louvável, mas quando se fere o direito do outro fazer o mesmo, criticando-o ou pior, se está indo no sentido oposto da democracia ou dos valores religiosos do respeito e amor ao próximo.
Se isso acontece, de repente, não é mais uma questão de consenso do que é melhor para o meu país ou do que mais me faz evoluir espiritualmente, mas de "se estar certo ou ter razão". Em outras palavras, a questão política e religiosa que deveriam atender a um Bem comum, passa agir em função do ego e desvirtua os objetivos principais de ambos.
Quando uma contradição assim existe, está sujeito acontecer disputas e discussões se deixando a preciosa oportunidade de se aprender com o diferente, mesmo que se continue agindo como eu acredito ser melhor. O respeito permite que eu me aproxime e aprenda com a diversidade e ela passa, mesmo sem eu concordar com ela, a me fazer enxergar não só os porquês de não concordar, mas no que eu posso melhorar com ela - deixando para isso o orgulho de lado.
Retomando a citação de Aquino, se concordo que temos a mesma vontade, ou seja, queremos a mesma coisa, podemos ter opiniões diferentes, até porque elas podem se complementar, ou ainda, tentamos hoje da sua maneira e se não der certo, amanhã tentamos da minha e quem sabe futuramente, possamos uni-las e trazendo o melhor de cada uma.
Da mesma forma, como psicóloga, estou com frequência diante do "aceitar o diferente". Se eu e meu cliente, queremos a mesma coisa - melhor qualidade de vida -, podemos ter opiniões diferentes, pois se há respeito, há paz. Havendo paz, consigo ver melhor. Se consigo ver melhor, escolho o que é melhor para minha evolução.

Gerar e gerir


O movimento da vida parece que circunda essas duas palavras: gerar e gerir. 
Há que se pensar que se gerar algo é o mesmo que criá-lo, mas penso também que somos meios pelos quais coisas são geradas, aí é que o gerir entra em campo.
Dizendo de outra forma: se eu tenho uma ideia inovadora, ela é fruto de muitas outras que agregadas e transformadas geram um novo conceito e esse quando gerado, só conseguirá mostrar seu valor e utilidade se for bem gerido. O mesmo quando se pensa da gerar um filho. A ideia original está na natureza, a concepção e geração de um novo ser apenas tem sua localização no corpo de uma mulher, mas como ela gere a chegada e criação desse novo indivíduo no mundo é que faz a diferença.
De uma maneira mais simples: duas pessoas tem a mesma ideia de abrir um negócio de venda de bolos caseiros. Daí não basta saber fazer bolos gostosos, tem que saber administrar os lucros e despesas, como conquistar clientela, enfim, um detalhado e laborioso processo de gerência.
Desde que descobri que estou grávida, o gerar praticamente se tornou um detalhe, apenas um -grande- passo diante de uma maratona do gerir. 
Administrar ou gerir é uma tarefa constante para qualquer um que assuma a responsabilidade de gerar. Sendo assim, é compreensível os que fogem da criação: seja de um filho seja de uma ideia/ sonho a ser posta em prática. Não é fácil colocar em segundo plano o que antes se tinha como prioridade, estabelecer uma disciplina nova, com novos hábitos que favoreçam a geração e que permitam a administração dessa nova criação.
Gerar sem gerir é pensar numa vida que crescesse sem movimento - o que não existe. Para que haja vida é preciso movimento e para se ter o movimento é preciso força. Força para sair da zona de conforto, exige o desapego dos velhos padrões de atos e pensamentos e nem sempre esse processo é fácil. 
O sacrifício (sacro ofício) da vida nova é o que nos permite - se persistirmos na gerência - ter o sentimento de realização pelo que conquistamos. Para haver uma nova vida ou uma nova ideia, é preciso constância e persistência no sonho de transformá-la numa realidade que perpetue o próprio movimento em favor da vida.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

NÃO ME ANALISA, NÃO!



Outro dia, uma amiga me fez a revelação de que o motivo pelo qual seu marido tagarelava sem parar quando eu os visitava era simples: encher minha cabeça de tanta informação que eu não tivesse tempo para analisa-lo. E qual não foi o susto dele ao minha amiga lhe perguntar: “e você acha que falar sem parar já não é uma coisa para se analisar?”. E ele, finalmente, ficou sem palavras.
Rimos, claro, porque é sim, engraçado. Mas é uma realidade diária para todo psicólogo que nossa profissão raramente causa reações mais neutras. Em maior ou menor grau, nossa presença, quando anunciada, pode aproximar uns e afastar outros. Logo que se começa a cursar psicologia, já vamos começando a perceber esses diferentes efeitos nas pessoas. Não querendo generalizar, mas falo aqui dos casos extremos que não são – ainda bem! – a maioria.
E os extremos são os “analise-me, por favor” e os “nem vem me analisando, não!”. O silêncio de um psicólogo diante de ambos gera sempre a fantasia de que estamos os enquadrando e traçando seus perfis em nossa cabeça. Depois do silêncio, o psicólogo emite um simples “hummm” e pronto, é praticamente o gatilho para os “analise-me, por favor” pedirem qual é o diagnóstico deles e dos “nem vem me analisando, não” irem pegar um copo d’água e não voltarem nunca mais. Enquanto isso, o psicólogo que, no silêncio, tentava lembrar se trancou a porta ao sair e fez “hummm” ao perceber que precisava reagir a outra pessoa que estava falando com ele, procura meios de responder à ansiedade do que pediu o diagnóstico ou de ficar parado se perguntando se não fora mal-educado com o que se retirara...
Essas reações ilustram que ainda há pouco esclarecimento sobre o que faz um psicólogo. E ainda dentro das diferentes áreas e funções que um psicólogo pode ter, existem ainda as diferentes abordagens e atuações particulares de cada profissional. Sem falar que como toda profissão, existem os bons e existem os ruins que são os que ajudam a disseminar ideias equivocadas a nosso respeito.
Agora, uma coisa é certa: medo de psicólogo é como medo de dentista, quando se tem, é porque se sabe que pode doer. Fazer terapia não é um bicho de sete cabeças, é uma busca de autoconhecimento, de aprender a ser mais adaptativo: melhorar a relação com o trabalho, com alguém em particular, com o próprio corpo, buscar orientação profissional etc. Inúmeras razões que podem ser beneficiadas com a nossa ajuda. Porém, assim como o exercício físico, qualquer esforço nos tira da zona de conforto e isso pode nos incomodar. Um pequeno preço a se pagar para ser mais feliz.
O medo, aquele monstrinho que sussurra que “eu não preciso de terapia”, “eu me viro sozinho” ou “terapia é para os fracos” impede a pessoa de enxergar que forte não é quem aguenta a dor psíquica calado até essa se tornar uma doença física, dor na coluna, enxaqueca, gastrite dentre outras. Tem gente que insiste em dar cabeçadas por anos e anos na mesma dor, mas resiste em procurar uma opinião profissional. Quando se trabalham as dores em terapia, se ganha muito tempo e qualidade de vida. Isso sem falar que há coisas que sem uma ajuda profissional podem não ser bem elaboradas, simplesmente reprimidas.
Mas tudo isso remete a um único ponto, né? Querer. Querer sair do aperto, da situação dolorosa, de parar de fazer mesmas escolhas ruins. Quem encontra a solução é quem a procura e para isso é preciso querer. Não há nada de fraco em pedir ajuda quando se precisa. Forte é quem melhor se adapta e supera as próprias limitações não importando se conseguiu isso sozinho ou com ajuda de um terapeuta.
Já aos "analise-me, por favor", deixo esse recado: assim como um cirurgião não faz cirurgia numa mesa de bilhar, um psicólogo precisa de um ambiente reservado para acessar suas emoções e pensamentos. E devagar com a ansiedade! Nós não nascemos sabendo andar, aprendemos aos poucos e assim é com todo nosso comportamento, nós levamos anos para nos tornar quem somos, não adianta querer acelerar o processo, é preciso respeitar nosso tempo. Então não numa conversa que dissecamos sua essência.
Vale lembrar ainda que pedir consultas fora do consultório só vale em casos de emergência. Um psicólogo é uma pessoa como outra qualquer: quando sai do trabalho precisa falar abobrinha pra relaxar e respirar um pouco da própria vida, já que passa tanto tempo procurando compreender a de seus clientes. 

sábado, 5 de outubro de 2013

O tempo não para!

Apesar do tempo sem escrever aqui, mas minhas atividades não pararam.
Aliás o trabalho social e clínico vêm se moldando, ganhando novas roupagens.
Por isso decidi continuar escrevendo aqui.
Eu comecei esse blog com o intuito de dar notícias a minha família no período que fui pra fora do Brasil. E o que parecia somente um lugar de encontro do tipo "querido diário" público, virou um espaço para refletir a minha prática na área social.
Então Ok. Eis que se configurou o espaço.
Refletir sobre nossa prática é um passo fundamental para melhorá-la por isso estou aqui.
Mais uma vez citando Paulo Freire, porque ele é "o cara" mesmo quando se trata de educação:
"Toda compreensão corresponde cedo ou tarde a uma ação. Se a compreensão for crítica, assim também será a ação".
E querendo compreender, vamos remar este barco. Como dizem os moçambicanos: "tamo junto"!
No próximo post, vou falar de como descobri a influência das habilidades sociais na aprendizagem.
Até lá!

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

"Amar é um ato de coragem"

Essa frase do Paulo Freire me fez pensar numa situação que acompanhei nesta semana. Um “educador” - entre aspas por se referir a um título e não ao sentido semântico da palavra - abandonou sua sala alegando que seus educandos eram incapazes de aprender. Isso já me chocaria em qualquer circunstância, especialmente neste caso em que conheço a criatividade e inteligência daqueles a quem ele sentenciou a ignorância eterna.
Passada a minha indignação depois de comentar com colegas tudo o que não tive a oportunidade de dizer a ele -infelizmente- tenho que admitir que, mesmo errando, ele acertou. Não no que disse acerca dos educandos, mas em abandonar seu posto e deixar espaço para quem abraça a causa de educar.
Quero deixar claro que não me vejo como educadora, mas alguém que procura zelar pelo processo de ensino-aprendizagem. Não sempre é fácil cumprir essa meta, mesmo sabendo da importância dela. Expor conhecimento não é educar, pode até ser o contrário disso, pois impõe verdades bitolando pontos de vista. Educar tem exatamente a função oposta: abrir a mente e gerar novas idéias, retroalimentando a própria educação.
Penso que educar é um ato de amor e, sendo assim, segundo Freire, exige coragem. Coragem porque não é fácil estar diante das diferentes formas que cada um aprende e buscar flexibilidade para adaptar-se a elas. Coragem porque transferir informações é fácil, mas despertar nas pessoas o senso crítico demanda esforço, persistência e constância. Sinto como um movimento visceral, pois a cada dia em que nos propomos a educar - ou seja, fazer nascer cidadãos pensantes - estamos diante do desafio de superar todas as barreiras construídas pela alienação do sistema educacional e pela cultura da banalização generalizada.
Mas não há como educar sem ser mobilizado por aqueles a quem se propõe ensinar. A via é de mão dupla e, a certa altura, educar (ensinar-aprender) tem que circular entre educador e educando para que se possa dizer que houve aprendizagem. Para que isso ocorra, é preciso ter uma mente aberta para desafios e coração disposto a ser constantemente tocado. Aí acredito que o “educador” encontrou seu limite: é na reação que chegamos à transformação, segundo Jung. O que ele descobriu é que isso pode doer às vezes, sendo o amor que nos mantém nesse caminho. E sua fuga deixou bem claro que isso ele não tinha. Então é melhor que siga em frente e encontre a vereda onde mora sua coragem. Por certo, auxiliará bem mais a todos e a si mesmo.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Ao horizonte, na aurora do dia



Aquele que não escuta

Nem sempre vê
Em sombras e vultos,
flutua, passa, esvai-se
Deixa a marca
Imprime sem porquê.



O que não conhece
Nem sempre atenta
Passeia e atravessa
Paredes como nuvens
Mas sente frio e o calor
Que o susto acalenta.



Este que não via
De repente, fica
Estremece ao ardor
De um verão sem brisa
Tateando o agora
Que o amanhecer purifica.



Alvorece com fogo
Força e luz
Dissipa fantasmas
Eleva seres
Aprofunda raízes
Em flores e frutos, reproduz...

domingo, 11 de novembro de 2012

De volta ao social...

Quando voltei ao Brasil, tudo o que pensava é que queria trabalhar com outras coisas, longe do trabalho social. Um ano e meio após meu retorno, lá estava eu em comunidades carentes de novo... E fiquei intrigada em saber o motivo de querer me afastar, mas, principalmente, no motivo de querer assumir de novo esse trabalho. 
Não é tão difícil imaginar que após ver uma realidade dura tão de perto como aconteceu em Moçambique, eu quisesse um tempo para respirar... Eram sempre vidas com histórias de perda, dor, doença, miséria e desesperanças que, na maioria dos casos, as pessoas iam vivendo suas vidas como sendo aquela a única realidade possível. E a sensação que nos acompanha é sempre de impotência, mesmo quando podemos e fazemos alguma coisa para auxiliar é apenas um grão de areia na praia.
Obviamente, o problema era comigo, na minha tolerância à dor empática vendo a realidade do outro. Além disso, um medo de que fosse engolida por aquela visão de mundo e ficasse presa nela eternamente.
Porém a volta foi no momento certo para voltar a enxergar e para refletir sobre toda aquela estranheza...
Como uma profecia desse período entre meu retorno e o momento que retomei o trabalho social, Galeano bem diz: "O medo de saber nos reduz à ignorância; o medo de fazer nos reduz à impotência". E ignorante e impotente me senti até o momento em que percebi que o medo de saber e de fazer me afastavam de um trabalho que amo, mas que tem seu preço. E a pergunta "eu estou disposta a pagar esse preço?" ruminou tanto na minha cabeça até o momento em que deixou de ser uma pergunta e se tornou uma afirmação.
Deixando minha "síndrome de Madre Tereza de Calcutá" de lado, acho mesmo que a carência maior do mundo não é de grandes ações comunitárias para sanar as grandes falhas do nosso governo corrupto (nossas próprias escolhas). Temos generalizado uma questão cultural de egocentrismo. Se a maioria de nós tivesse a capacidade de olhar para o outro e ao redor e se importar, teríamos uma realidade bem diferente. Curiosamente, Moçambique sofre menos dessa mazela. As pessoas são mais solidárias e generosas diante da necessidade do outro. 
A pergunta que me faço todos os dias agora é: "como fazer que os outros vejam e se importem?"... Não acredito que campanhas sensacionalistas sejam a solução, tudo o que fazem é tornar a realidade fabricada e a idéia piegas. Nem acho que 'campanhas' se apliquem aqui. Acredito que uma reforma humanista especialmente da educação pode começar a formar mais seres sociais e menos indivíduos. É minha meta.

Pesquisar este blog