domingo, 1 de agosto de 2010

Cultura 3 e Linguagem 2 - Colonizados e civilizados

Vindo de um país colonizado como o Brasil, acredito que fica mais evidente a desvalia com que o moçambicano se refere à própria cultura. Nós brasileiros, em geral, ainda acreditamos que o que vem de fora é melhor ao invés de valorizar nossa imensa variedade cultural, nossas diversas raízes e que são as coisas que nos fazem únicos no mundo. Ao invés disso, caímos no erro de acreditar que somos piores que os colonizadores, os verdadeiros “civilizados”, utilizando essa palavra no sentido mais popular de adiantamento cultural. Não deixo de considerar que existem outras questões por detrás, por exemplo, da imposição de uma língua que não é a de origem por exemplo. Acho que ainda não havia parado para me questionar seriamente sobre o quanto isso afeta a cultura positiva e negativamente já que vim de um país de língua unificada em que as línguas indígenas brasileiras são relegadas a recônditos do nosso país: nós não nos misturamos, não as conhecemos, mas se seus falantes querem ser “civilizados”, tem que aprender a “nossa” língua. Aqui em Moçambique dentro de um mesmo estado (província) podem se falar até cinco línguas diferentes. Normalmente numa cidade existe uma maioria falando uma única, mas sempre há pessoas falando outras línguas. Nas áreas mais afastadas do centro urbano (mas não muito, a 20 minutos de caminhada), encontramos pessoas (crianças, adultos, idosos) que não falam nada de português. Dá para imaginar a dificuldade de unificar um país inteiro do tamanho de Moçambique em educação e direitos e deveres dos cidadãos com esse porém da linguagem. Seria preciso uma unificação seja do português, seja de uma das línguas bantu (mesmo assim, qual seria o critério de escolha com tantas espalhadas pelo país?) para que o país pudesse dar um salto de alfabetização e a conseqüente compreensão com o que se tem direito ou não. Tudo o que o camponês que não fala português sabe é que o governo e suas leis não chegam até ele. Mas como disse Paulo Freire, unificação lingüística leva tempo e tem que ser uma decisão política. Algo que acredito que não interessa ao governo de Moçambique, já que preferem impor uma língua falada em outras partes do mundo do que adotar uma que só os locais entenderiam. Lembrando de que Moçambique ainda está totalmente apoiado em ajuda internacional para manter esse país e suas necessidades. Sendo algo atualmente desnecessário já se está sem guerras, com a riqueza de agricultura, caça e pesca que têm no país, sem falar no petróleo, ainda inexplorado nessa terra.
Os moçambicanos e brasileiros são irmãos, filhos de uma colonização portuguesa. Mas também irmãos de muitos outros, de toda a África, da América Latina e parte da Ásia, Oceania, todos com países e pessoas colonizados e ensinados que são inferiores. Acho que um escrito como esse mais parece mais um falando sobre colonização. Mas quando se trabalha próximo às pessoas tentando fazer com que compreendam não precisam ser iguais aos colonizadores para serem melhores e de que sua cultura é linda exatamente por ser diferente e tudo que obtemos como resposta é que “nós, negros, não temos jeito, somos corruptos e burros”. É frustrante. Não só porque não atingimos o objetivo de obter sua compreensão (como fazer alguém ver o que está além de sua vivência diária?), mas porque temos a lembrança no coração daqueles lá do outro lado mundo, próximos a nossa casa que fazem as coisas de qualquer jeito porque “brasileiro sempre dá um jeitinho”, mesmo se for perpetuando o pensamento do colonizador.

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