sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Ao horizonte, na aurora do dia



Aquele que não escuta

Nem sempre vê
Em sombras e vultos,
flutua, passa, esvai-se
Deixa a marca
Imprime sem porquê.



O que não conhece
Nem sempre atenta
Passeia e atravessa
Paredes como nuvens
Mas sente frio e o calor
Que o susto acalenta.



Este que não via
De repente, fica
Estremece ao ardor
De um verão sem brisa
Tateando o agora
Que o amanhecer purifica.



Alvorece com fogo
Força e luz
Dissipa fantasmas
Eleva seres
Aprofunda raízes
Em flores e frutos, reproduz...

domingo, 11 de novembro de 2012

De volta ao social...

Quando voltei ao Brasil, tudo o que pensava é que queria trabalhar com outras coisas, longe do trabalho social. Um ano e meio após meu retorno, lá estava eu em comunidades carentes de novo... E fiquei intrigada em saber o motivo de querer me afastar, mas, principalmente, no motivo de querer assumir de novo esse trabalho. 
Não é tão difícil imaginar que após ver uma realidade dura tão de perto como aconteceu em Moçambique, eu quisesse um tempo para respirar... Eram sempre vidas com histórias de perda, dor, doença, miséria e desesperanças que, na maioria dos casos, as pessoas iam vivendo suas vidas como sendo aquela a única realidade possível. E a sensação que nos acompanha é sempre de impotência, mesmo quando podemos e fazemos alguma coisa para auxiliar é apenas um grão de areia na praia.
Obviamente, o problema era comigo, na minha tolerância à dor empática vendo a realidade do outro. Além disso, um medo de que fosse engolida por aquela visão de mundo e ficasse presa nela eternamente.
Porém a volta foi no momento certo para voltar a enxergar e para refletir sobre toda aquela estranheza...
Como uma profecia desse período entre meu retorno e o momento que retomei o trabalho social, Galeano bem diz: "O medo de saber nos reduz à ignorância; o medo de fazer nos reduz à impotência". E ignorante e impotente me senti até o momento em que percebi que o medo de saber e de fazer me afastavam de um trabalho que amo, mas que tem seu preço. E a pergunta "eu estou disposta a pagar esse preço?" ruminou tanto na minha cabeça até o momento em que deixou de ser uma pergunta e se tornou uma afirmação.
Deixando minha "síndrome de Madre Tereza de Calcutá" de lado, acho mesmo que a carência maior do mundo não é de grandes ações comunitárias para sanar as grandes falhas do nosso governo corrupto (nossas próprias escolhas). Temos generalizado uma questão cultural de egocentrismo. Se a maioria de nós tivesse a capacidade de olhar para o outro e ao redor e se importar, teríamos uma realidade bem diferente. Curiosamente, Moçambique sofre menos dessa mazela. As pessoas são mais solidárias e generosas diante da necessidade do outro. 
A pergunta que me faço todos os dias agora é: "como fazer que os outros vejam e se importem?"... Não acredito que campanhas sensacionalistas sejam a solução, tudo o que fazem é tornar a realidade fabricada e a idéia piegas. Nem acho que 'campanhas' se apliquem aqui. Acredito que uma reforma humanista especialmente da educação pode começar a formar mais seres sociais e menos indivíduos. É minha meta.

domingo, 4 de novembro de 2012

A vida após a África

Foram quase dois anos sem escrever. E posso mesmo dizer que foram quase dois anos longe da Concórdia... um pouco afastada do meu centro. Retornar a nossa casa após longa viagem para terras desconhecidas é como correr para apanhar um trem em movimento e quando finalmente se consegue entrar você descobre que lá dentro esperam você para realizar uma prova. Vamos fazendo, tateando e descobrindo como fazer enquanto se faz. Até que parece que seus pés sentem a terra e você realmente está de volta...
Sentir o chão ainda é só o começo. O corpo sente, mas a cabeça ainda tenta reconhecer tudo de novo, pois ainda está lá na terra quente e vibrante do outro lado do oceano.
O tempo é a chave. Daí os quase dois anos voltando... Hoje sinto que retomei os trilhos agora na direção e não mais como passageiro fortuito. 
Deste ponto, retomo os post, o compartilhamento de vivências e conhecimentos, a contação de causos... Para aqueles que acompanhavam o blog, a temática ainda é a mesma: educação, psicologia e cultura. Mas o contexto é outro: diretamente de áreas rurais africanas à selva de pedra brasileira. Estou na cidade de São Paulo e trabalhando numa ONG na periferia. Os dilemas - garanto - não são tão distantes das areias quentes de Inhambane.
Estou feliz em estar de volta!

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