quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O que levar na bagagem

Ontem e hoje foram de uma tortura só que terminou hoje às duas da tarde: preparar as malas para ficar um ano em outro país. O grande dilema é o que fazer com tantas coisas inúteis, outras simplesmente cheias de lembranças. Foi a primeira vez que olhei para a tranqueira toda que trouxe e questionei o porquê de tanta coisa. A resposta que veio na minha cabeça foi medo. Tantas coisas tentando suprir a distância de casa, cada objeto dado de presente um tentativa de estar próximo daqueles de quem me afastei. E o mais reconfortante ao completar a difícil tarefa de desapego é perceber que eu não preciso de coisas para me lembrar das pessoas de quem amo. Enquanto estava aqui, percebi que são situações, músicas ou traços da personalidade de outras pessoas que deixam vivas as lembranças de meus amados e amores que estão no Brasil. Hoje ao guardar os objetos da minha escrivaninha, percebi que durante seis meses as fotos da minha família que coloquei na parede resistiram bravamente quando todos os outros objetos que tentava colocar me obrigavam a constantemente reforçar o adesivo para mantê-los firmes. O que me levou a outra conclusão: todo o resto são coisas, objetos que podem ser substituídos por outros ou que podem simplesmente nem fazer falta, mas é a imagem das minhas raízes que fica. 
Enfim cumprida (e comprida!) a missão de fazer as malas, levo apenas uma mala para a África deixando os outros objetos para trás. Desprender-se não é fácil. Assim como, apesar de toda excitação com a viagem, São Vicente já soa pra mim como música nostálgica antes mesmo de ter partido. Na mala, o necessário e básico (com poucos caprichos...). Na bagagem, trago tudo o que de novo nesses seis meses, intensos meses de novidades, estranhamento, deslumbramento e confrontação do real que simplesmente vêm comigo juntando-se a tudo que trouxe do Brasil: amor e aprendizado.
Em cinco horas saio para o aeroporto e em oito deixo essa terrinha que foi minha morada por seis meses e que hoje faz parte de um dos lugares que já chamei de lar...

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Próxima parada: Inhambane

Na próxima sexta-feira, 26, estarei deixando São Vicente e indo para a cidade de Inhambane, na província de mesmo nome, em Moçambique, onde vou ficar por um ano. A longa viagem vai de São Vicente a Barbados, deste para Londres, desta para Dubai, de lá para Johannesburg, na África do Sul, para então, finalmente, pegarmos um ônibus para Maputo, capital de Moçambique. De Maputo ainda temos 500 Km de estrada até Inhambane. Nesse ínterim, vou ter a oportunidade de conhecer mesmo que brevemente um pouco de Barbados e Johannesburg onde vamos ficar mais tempo, e, pelo menos, o aeroporto de Londres e Dubai, mas sobre o que quero falar mesmo é do que hoje sei sobre essa minha próxima morada nesse ano para saber o que vai acrescentar ou mudar do que sei hoje.
A primeira informação que chegou até mim me chocou e decepcionou um pouco. A pessoa, que estava morando lá há uns quatro meses, me falou que Inhambane não é África. Foi um baque! É uma cidade turística que em nada se assemelha à realidade de outras cidades menores e mesmo do centro do país. Pois é Inhambane é banhada pelo oceano Índico e conhecida também por ter muitas arraias mantas, o que é um grande atrativo para mergulhadores e turistas de todas as partes do mundo. Tursimo + pobreza = ?? Quem pensou primeiro em progresso errou. A resposta correta é a mendicância e prostituição em meninas pré-adolescentes e adolescentes que largam seus estudos para trabalhar exclusivamente num trabalho que rende muito mais do que seus pais já viram na vida toda deles. 
A outra consequência é que contraem HIV/ SIDA muito mais rápido (sim, a AIDS é coisa mais comum lá depois da diarréia e da malária) e só pra completar o quadro, engravidam pouco tempo depois de terem menstruado.
Além de trazer esses problemas, o turismo claro que traz as facilidades urbanas com mais opções para quem está acostumado com cidades grandes: cyber café, festas etc. É uma cidade que já não tem mais o ritmo amistoso da maioria das outras cidades africanas em que as pessoas estão sempre cantando, dançando e comemorando a chegada de qualquer pessoa com uma celebração e sorrisos.
Se tudo isso for verdade, vai ser frustrante e eu vou ter que ir atrás de povoados nas redondezas que possam condizer com verdadeira África de pessoas calorosas e musicais que tantos já relataram. Meu trabalho é Inhambane, mas se for só mais uma cidade turística a conhecer, meu coração vai para outro lugar de Moçambique...

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Tic tac

O tempo aqui é uma coisa engraçada. Às vezes simplesmente voa, e às vezes não passa. Um dia acordamos e temos a sensação de tudo passou muito rápido e que os seis meses pareceram quatro semanas. E às vezes parece que estamos aqui tempo demais...
Hoje ao descobrir que nossa viagem foi adiada por causa do atraso da entrega dos passaportes pela embaixada de Moçambique (ainda não sei quando será remarcada porque só quando tivermos os passaportes podemos confirmar uma data), o tempo novamente pareceu parar e hoje foi mais um longo dia de repetições que simplesmente antecede outro longo dia depois que vamos dormir.
Estamos somente na terça-feira e as coisas que fizemos no final de semana parecem que aconteceram há semanas e alguns minutos depois temos a impressão de ter sido ontem, parece coisa de "Além da imaginação", ou talvez estejamos perto demais do triângulo das Bermudas... =)))))
Mas a verdade é que uma rotina repetitiva num cenário que simplesmente é igual o tempo todo pode ter esse efeito. O mesmo deve acontecer quando se fica muito tempo em hospitais ou presídios.
Quando soubemos que iríamos na quinta-feira, uma onda de alegria misturada a uma súbita nostalgia e vontade de prolongar a estada mais uns dias se generalizou. E agora que a partida é incerta, tudo o que sabemos é que o tempo pareceu crescer novamente, longo demais para o meu gosto.
Espero que as notícias amanhã sejam mais animadoras e que possamos começar a arrumar as malas. 
A aproximação da viagem para a África só apertou mais a saudade do papai e da vovó. Queria poder conversar, dizer como está sendo, contar como vai ser quando chegar lá. É uma dessas ondas de saudade que simplesmente nos pegam de supetão. Eles ficariam felizes por mim.



I wish you were here


Dryin’ these tears I cry
They were good times
And I wish you were here
Calling my name

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Quando os gatos saem...

Eram seis da manhã, eu tinha acordado suada de calor olhando pra janela para tentar entender porque tanto calor naquela hora do dia. Para meu espanto, na tela da janela, eu vejo a sombra de um pequeno, mas ainda assim, camundongo. Eu dei um pulo e gritei: "shit" o que acordou a Betinha (minha roomie)...
- Está dentro ou fora?, eu perguntei
- O que?, ela perguntou
Enquanto isso eu já tinha levantado e estava abrindo a cortina para revelar que...
- Está dentro!!! eu gritei
- Puta madre! ela gritou
Ele correu para cima da escrivaninha.
- Será que pegamos o gato? ela disse
Eu me lembrei de que tinha visto um dos gatos caçando um rato há uns dias atrás (só não me lembrava qual!) então eu disse "sim!" Abri a porta e saí correndo atrás do primeiro gato que encontrasse. Enquanto isso, Royal que adotou o sofá de frente do meu quarto como cama me olhou e abanou o rabo.
Corri o corredor inteiro até o salão principal onde encontrei um dos gatos dormindo, chamei como se fosse dar comida e ele veio (eles são sempre esfomeados). Agarrei o gato e corri de volta.
Cheguei no quarto, joguei o gato lá dentro e fechei a porta. 
- Ele desceu da escrivaninha e está embaixo atrás daquela caixa, a Betinha falou.
- Aqui gatinho, eu falei.
O gato estava miando desesperado querendo pular a janela assustado ou sei lá o quê.
- Estúpido, cabrón! Betinha gritou.
O gato desceu da janela (que estava fechada) e correu para debaixo da cama. Enquanto isso eu já ignorava o  gato e puxei a caixa que o rato tinha se escondido, nenhum sinal dele. Mas ainda havia outra ao lado.
- Gato idiota!! Se escondeu embaixo da cama! Vem cá, cabrón! Betinha gritou.
- Aqui, gatinho, eu falei com voz de bebê (com ódio do gato!).
Olhei embaixo da cama e o gato estava atrás da minha mala, só dava para ver o rabo dele que sacudia de um lado para o outro. Puxei a mala...
- O rato!! Betinha gritou.
- E o gato!! eu gritei.
Num salto de fração de segundo o gato agarrou o rato! Nós saímos do quarto porque não queríamos ver o trabalho sujo.
- Ele vaí deixar sangue no nosso quarto! Betinha disse
- Argh!! eu falei
Quando olhamos pra trás o gato estava próximo à porta, já do lado de fora, lambendo-se e se esfregando todo (como todo gato satisfeito!). A gente se olhou e dissemos "acho que ele acabou", voltamos pro quarto e fomos direto olhar embaixo da cama. Nenhum sinal de sangue! Nenhuma gota!
- Trabalho profissional, de primeira, eu falei.
- Eu amo gatos a partir de hoje, nunca mais vou tratá-los mal... Betinha disse.
Rimos e rimos e começamos a ter arrepios ao pensar por onde o rato tinha andado antes de chegar na janela!! Aaaaaarrghhh!!!!
Isso tudo se passou em cinco minutos.


Moral do dia: 1)A natureza é perfeita (e faz trabalho limpo!). 2)Vamos adotar um gato na África (contra ratos), um cachorro (contra estranhos) e um gafanhoto (contra baratas).


            Nosso herói. Descanso merecido (diário, na verdade).

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Rastro de mim mesma

Às vezes penso que simplesmente não há nada mais para se escrever porque nossas idéias são nada menos que resultados de tantas coisas que lemos e vivemos e que tantos outros também o fizeram e estão fazendo. "Há pouca coisa para se dizer", eu sempre penso. Mas não tem como evitar de pensar tanto e ter tantas coisas para se dizer. Mas a verdade é o tempo passa e eu esqueço de me sentar e simplesmente escrever. Todo o fluxo de grandes idéias é simplesmente interrompido por uma conversa ou alguma tarefa urgente. Ainda ponho muita coisa na frente do ato de ligar o computador e sentar para escrever.
Então resolvi escrever esse post para dizer somente que me perdoem a falta de notícias mais frequentes e que, consciente de que preciso consertar isso, procurarei respeitar mais o fluxo dos meus pensamentos que expresso aqui no blog. Especialmente porque na situação atual, tem sido meu principal vínculo com vocês, um com o qual vocês podem me acompanhar sem nem mesmo falar comigo.
Na África, internet vai ser ainda mais desafiadora, talvez seja uma forma de valorizar mais esse espaço, mas de qualquer forma vou procurar não me manter distante, mais do que já estou.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Distâncias que separam e aproximam


Esse momento é de muita correria, sinto-me um pouco angustiada ou talvez seja só saudade.
A saudade aqui ganha proporções que realmente não tinha experimentado ainda - apesar de ter vivido longe de pessoas que amo a maior parte do tempo, mas nem se compara a isso. É bem mais do que simplesmente querer estar perto e abraçar ou participar dos acontecimentos alegres ou difíceis. É como estar faltando uma parte de si mesmo que a gente precisa relembrar com músicas e fotos. Aqui, onde os valores são muitas vezes tão diferentes dos nossos -alguns até distorcidos-, se exercita mais do que tolerância, se exercita encontrar quem realmente se é, caso contrário, se perde em meio a tanta banalidade quando estamos em momentos de tristeza e fraqueza.
Isso me faz perceber que existem espíritos abertos para viverem longe de suas famílias (que talvez não lhe sejam tão caros como os meus o são) como vemos muito por aqui, pessoas com famílias, filhos em seus países de origem (ou não) e que simplesmente escolhem viver a distâncias muitas vezes intransponíveis, já que vem para países por anos sem sequer mencionar uma visita à família.
Eu, definitivamente, não sou um desses. Preciso acompanhar minha família seja simplesmente para fazer parte dela, seja para dar suporte quando necessário. Não morando na casa ao lado, nem sequer na mesma cidade, mas no mesmo país já é o suficiente, mesmo sendo uma país grande como o Brasil. Dói muito saber quando qualquer um da família está passando por qualquer dificuldade e quão complicado seria sair de onde estou para voltar ao Brasil. E quando sou eu quem estou precisando de um colo a dor explode num vazio que aqui ninguém nem que tente pode preencher.
Claro que as coisas aqui não se resumem a uma superficialidade total. Fiz amigos aqui (pelo menos dois) que tenho certeza de que vou levar para a vida inteira, nem que seja em contatos esporádicos pela internet. Mas simplesmente não são minha família. E família aqui é algo que fica bem claro para mim quem são. O que muitas vezes chamamos de amigos, mesmo aqueles com quem nos sentimos tão em casa e familiarizados posso compreender hoje que podem ser somente parceiros de atividades, mas os que você sente falta realmente são os que você enumera como parte da sua família na hora da saudade. 
Isso me faz questionar se essa saudade imensa é uma fraqueza ou uma fortaleza... acho que depende de cada caso.
Bom, hoje nossos passaportes foram para os EUA para adiantar o visto para Moçambique e amanhã vamos tomar vacinas que estão faltando. Cada dia que passa é um dia a menos em São Vicente e um dia próximo da África. Um ano na África... como será minha saudade até lá?

Pesquisar este blog