quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

África é um tubarão-baleia

Roubei a frase do título de um novo amigo ... Dizia ele que África é um tubarão-baleia porque assusta quando se vê, mas é dócil e amável quando nos damos a chance de nos aproximar... 
Essa semana mergulhei novamente com um desses aí. A sensação é a mesma de quando cheguei aqui nesta terra: respeito e admiração.
Aquele medo inicial rapidamente se converteu em amizade e familiaridade. 
Dez meses de Moçambique só me ensinaram... Prepotentemente, talvez ainda acreditasse que vim fazer alguma coisa pela África, mas não demorou muito para que eu percebesse que eu precisava mais dela do que ela de mim. 
E acho que um dos problemas de muitos de nós que trabalhamos com desenvolvimento local é exatamente acreditar que o outro precisa muito de nós. Daí podemos cair facilmente no erro do pai/ mãe que super protege o filho porque é "só uma criança" e não sabe de nada ainda. Nem abandono nem proteção... Como achar o caminho do meio quando tantas pessoas e organizações de diferentes culturas e países interferem uns nos outros? Como essa criança vai andar sozinha?
Ao mesmo tempo, os países da África sobrevivem, a maioria deles, com suas culturas fortes e marcantes encantando aos comercializados como nós que por aqui passam. Eu não sei se ficaria feliz de ver a África inundada de globalização com sua cultura sufocada pelos uniformes do capitalismo. Mas como levar um pouco de melhoria para as vidas das pessoas sem contaminá-las com o consumismo capitalista da nossa cultura?
Bom, tudo isso é só uma reflexão... Ingênua talvez. Mas acho que somos todos crianças, principalmente aqueles que acreditam não ser mais.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Cultura 7 - Quem tem um sonho?

“Hoje, eu tenho um sonho” disse Martin Luther King em frente ao Memorial Lincoln em Washington após os negros terem conquistado direito de igualdade perante a sociedade dos Estados Unidos da América. Sempre me perguntei por que ele diria isso diante de um momento em que o sonho estava se concretizando. Mas existe uma grande fresta entre se uma lei aprovada e sua aplicação. Um povo pode possuir leis muito justas e ainda assim viver em trevas.
Onde estou há leis premiadas internacionalmente e pessoas que são indiferentes e burladores dela e outras - a maioria - que simplesmente a ignoram. Agir sob costumes que retardam qualquer progresso. Começam desde os que estão no poder e que dirá dos que nem acesso à informação dos seus direitos têm. A ajuda internacional somente acostumou um povo organizado em tribos a pedir indiscriminadamente entre eles próprios e principalmente aos que vem de fora. Pedem tudo, o que precisam e o que querem. E por que falei sobre o sistema de tribos? Essa teoria surgiu de uma pessoa que conheci e me parece que faz sentido esses e outros entraves ao desenvolvimento surgirem. São competitivos entre si, mesmo dentre aqueles que sabem o outro tem mais necessidades que si próprio, mas ainda assim querem tirar vantagens. Ouvi bastante quando cheguei aqui: “essa nossa raça não presta, todos têm inveja e querem destruir o outro”. Claro que minha reação chocada era dizer que isso era uma condição humana não de raça. Mas hoje compreendo melhor o que queriam me dizer. Aqui não é uma mera competição de ser melhor ou pior. O comportamento ainda tribal leva a roubar, vandalizar, agredir mesmo aqueles que são seus vizinhos, familiares... A corrupção é diária, comum, ‘normal’.
A ajuda internacional manda rios de dinheiro para que a população tenha benefícios como registro civil grátis, roupas e medicamentos para órfãos etc. O registro civil tem que ir até as comunidades longínquas para alcançar as pessoas que nem dinheiro de transporte têm. Quando chegam lá, cobram pelo registro a essas mesmas pessoas que nem sabem o que vão comer amanhã. Roupas são vendidas, oferecidas a amigos e familiares.
Há muitas oportunidades de ser corrompido aparecem aqui. As pessoas pedem chorando para que você as beneficie, mesmo que de maneira antiética. E se escandalizam quando recusamos nos corromper, porque você está sendo maldoso.
Essa história me lembra sim, o “jeitinho brasileiro” de resolver os problemas. Mas não me lembro de ter dificuldades de encontrar pessoas honestas no Brasil, mesmo com tantas corrompidas. Mas aqui sim, é difícil. Dar a palavra aqui não significa nada. Descumprem com a mesma facilidade com que a proferiram.
São essas algumas passagens que tenho observado aqui. E da minha luta diária para manter na mente que somente a educação, o exemplo e tempo podem ensiná-los a viver com ética; que mesmo os responsáveis pela educação sendo corruptos, as raras exceções podem fazer a diferença no futuro. E que eu se quiser fazer a diferença precisaria de um tempo de dedicação a esta causa muito superior a um ano...

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