terça-feira, 22 de outubro de 2013

NÃO ME ANALISA, NÃO!



Outro dia, uma amiga me fez a revelação de que o motivo pelo qual seu marido tagarelava sem parar quando eu os visitava era simples: encher minha cabeça de tanta informação que eu não tivesse tempo para analisa-lo. E qual não foi o susto dele ao minha amiga lhe perguntar: “e você acha que falar sem parar já não é uma coisa para se analisar?”. E ele, finalmente, ficou sem palavras.
Rimos, claro, porque é sim, engraçado. Mas é uma realidade diária para todo psicólogo que nossa profissão raramente causa reações mais neutras. Em maior ou menor grau, nossa presença, quando anunciada, pode aproximar uns e afastar outros. Logo que se começa a cursar psicologia, já vamos começando a perceber esses diferentes efeitos nas pessoas. Não querendo generalizar, mas falo aqui dos casos extremos que não são – ainda bem! – a maioria.
E os extremos são os “analise-me, por favor” e os “nem vem me analisando, não!”. O silêncio de um psicólogo diante de ambos gera sempre a fantasia de que estamos os enquadrando e traçando seus perfis em nossa cabeça. Depois do silêncio, o psicólogo emite um simples “hummm” e pronto, é praticamente o gatilho para os “analise-me, por favor” pedirem qual é o diagnóstico deles e dos “nem vem me analisando, não” irem pegar um copo d’água e não voltarem nunca mais. Enquanto isso, o psicólogo que, no silêncio, tentava lembrar se trancou a porta ao sair e fez “hummm” ao perceber que precisava reagir a outra pessoa que estava falando com ele, procura meios de responder à ansiedade do que pediu o diagnóstico ou de ficar parado se perguntando se não fora mal-educado com o que se retirara...
Essas reações ilustram que ainda há pouco esclarecimento sobre o que faz um psicólogo. E ainda dentro das diferentes áreas e funções que um psicólogo pode ter, existem ainda as diferentes abordagens e atuações particulares de cada profissional. Sem falar que como toda profissão, existem os bons e existem os ruins que são os que ajudam a disseminar ideias equivocadas a nosso respeito.
Agora, uma coisa é certa: medo de psicólogo é como medo de dentista, quando se tem, é porque se sabe que pode doer. Fazer terapia não é um bicho de sete cabeças, é uma busca de autoconhecimento, de aprender a ser mais adaptativo: melhorar a relação com o trabalho, com alguém em particular, com o próprio corpo, buscar orientação profissional etc. Inúmeras razões que podem ser beneficiadas com a nossa ajuda. Porém, assim como o exercício físico, qualquer esforço nos tira da zona de conforto e isso pode nos incomodar. Um pequeno preço a se pagar para ser mais feliz.
O medo, aquele monstrinho que sussurra que “eu não preciso de terapia”, “eu me viro sozinho” ou “terapia é para os fracos” impede a pessoa de enxergar que forte não é quem aguenta a dor psíquica calado até essa se tornar uma doença física, dor na coluna, enxaqueca, gastrite dentre outras. Tem gente que insiste em dar cabeçadas por anos e anos na mesma dor, mas resiste em procurar uma opinião profissional. Quando se trabalham as dores em terapia, se ganha muito tempo e qualidade de vida. Isso sem falar que há coisas que sem uma ajuda profissional podem não ser bem elaboradas, simplesmente reprimidas.
Mas tudo isso remete a um único ponto, né? Querer. Querer sair do aperto, da situação dolorosa, de parar de fazer mesmas escolhas ruins. Quem encontra a solução é quem a procura e para isso é preciso querer. Não há nada de fraco em pedir ajuda quando se precisa. Forte é quem melhor se adapta e supera as próprias limitações não importando se conseguiu isso sozinho ou com ajuda de um terapeuta.
Já aos "analise-me, por favor", deixo esse recado: assim como um cirurgião não faz cirurgia numa mesa de bilhar, um psicólogo precisa de um ambiente reservado para acessar suas emoções e pensamentos. E devagar com a ansiedade! Nós não nascemos sabendo andar, aprendemos aos poucos e assim é com todo nosso comportamento, nós levamos anos para nos tornar quem somos, não adianta querer acelerar o processo, é preciso respeitar nosso tempo. Então não numa conversa que dissecamos sua essência.
Vale lembrar ainda que pedir consultas fora do consultório só vale em casos de emergência. Um psicólogo é uma pessoa como outra qualquer: quando sai do trabalho precisa falar abobrinha pra relaxar e respirar um pouco da própria vida, já que passa tanto tempo procurando compreender a de seus clientes. 

sábado, 5 de outubro de 2013

O tempo não para!

Apesar do tempo sem escrever aqui, mas minhas atividades não pararam.
Aliás o trabalho social e clínico vêm se moldando, ganhando novas roupagens.
Por isso decidi continuar escrevendo aqui.
Eu comecei esse blog com o intuito de dar notícias a minha família no período que fui pra fora do Brasil. E o que parecia somente um lugar de encontro do tipo "querido diário" público, virou um espaço para refletir a minha prática na área social.
Então Ok. Eis que se configurou o espaço.
Refletir sobre nossa prática é um passo fundamental para melhorá-la por isso estou aqui.
Mais uma vez citando Paulo Freire, porque ele é "o cara" mesmo quando se trata de educação:
"Toda compreensão corresponde cedo ou tarde a uma ação. Se a compreensão for crítica, assim também será a ação".
E querendo compreender, vamos remar este barco. Como dizem os moçambicanos: "tamo junto"!
No próximo post, vou falar de como descobri a influência das habilidades sociais na aprendizagem.
Até lá!

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

"Amar é um ato de coragem"

Essa frase do Paulo Freire me fez pensar numa situação que acompanhei nesta semana. Um “educador” - entre aspas por se referir a um título e não ao sentido semântico da palavra - abandonou sua sala alegando que seus educandos eram incapazes de aprender. Isso já me chocaria em qualquer circunstância, especialmente neste caso em que conheço a criatividade e inteligência daqueles a quem ele sentenciou a ignorância eterna.
Passada a minha indignação depois de comentar com colegas tudo o que não tive a oportunidade de dizer a ele -infelizmente- tenho que admitir que, mesmo errando, ele acertou. Não no que disse acerca dos educandos, mas em abandonar seu posto e deixar espaço para quem abraça a causa de educar.
Quero deixar claro que não me vejo como educadora, mas alguém que procura zelar pelo processo de ensino-aprendizagem. Não sempre é fácil cumprir essa meta, mesmo sabendo da importância dela. Expor conhecimento não é educar, pode até ser o contrário disso, pois impõe verdades bitolando pontos de vista. Educar tem exatamente a função oposta: abrir a mente e gerar novas idéias, retroalimentando a própria educação.
Penso que educar é um ato de amor e, sendo assim, segundo Freire, exige coragem. Coragem porque não é fácil estar diante das diferentes formas que cada um aprende e buscar flexibilidade para adaptar-se a elas. Coragem porque transferir informações é fácil, mas despertar nas pessoas o senso crítico demanda esforço, persistência e constância. Sinto como um movimento visceral, pois a cada dia em que nos propomos a educar - ou seja, fazer nascer cidadãos pensantes - estamos diante do desafio de superar todas as barreiras construídas pela alienação do sistema educacional e pela cultura da banalização generalizada.
Mas não há como educar sem ser mobilizado por aqueles a quem se propõe ensinar. A via é de mão dupla e, a certa altura, educar (ensinar-aprender) tem que circular entre educador e educando para que se possa dizer que houve aprendizagem. Para que isso ocorra, é preciso ter uma mente aberta para desafios e coração disposto a ser constantemente tocado. Aí acredito que o “educador” encontrou seu limite: é na reação que chegamos à transformação, segundo Jung. O que ele descobriu é que isso pode doer às vezes, sendo o amor que nos mantém nesse caminho. E sua fuga deixou bem claro que isso ele não tinha. Então é melhor que siga em frente e encontre a vereda onde mora sua coragem. Por certo, auxiliará bem mais a todos e a si mesmo.

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