quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Aquilo que falta


Depois de um agitado mês no meu blog escrevendo com certa regularidade é de se estranhar que um mês inteiro tenha se passado em branco. Foi um mês em muita coisa continuou acontecendo nessa agitada vida em treinamento na Richmond Vale Academy. Mas nesse contexto de novidades o que me deixou sem chão e de coração dolorido ocorreu no meu país, na cidade em que cresci: meu pai se foi desse mundo. Claro que havia passado pela minha cabeça que ao viajar para cá poderia ser a última vez que o veria, e assim o foi, mas preferi não acreditar nisso, até porque ele sempre nos surpreendia com sua saúde de ferro...
Quando o treze de outubro chegou, uma terça-feira, eu perdi a noção do tempo e precisei de umas semanas para conseguir alcançar o chão novamente. Quem viveu algo semelhante sabe como é viver como um autômato, realizando atividades sem pensar, somente um corpo se movimentando em diferentes direções e sentidos. O apoio que tive aqui de meus novos amigos foi essencial para que eu conseguisse retomar minha rotina não só nos afazeres, mas no sentir que desde aquele dia converteu-se somente em dor...
Quando finalmente voltei a sentir (alegria, raiva, tédio, entusiasmo etc), pude ver melhor como me senti pequena diante de uma falta tão intensa. E como podemos voltar a ser crianças em poucos instantes, não ao esquecer objetivos ou responsabilidades, mas ao se sentir vulnerável e ficar imóvel conseguindo apenas soluçar. E essa posição nos faz pensar em nós mesmos, quem somos, porque fazemos nossas escolhas e, principalmente, como nossa vida é frágil e fugidia. 
Venho sentindo o quanto não temos consciência da importância daqueles que nos cercam e o papel deles em nossa vida e o nosso na deles. Como pequenos atos fazem diferença, como a raposa do pequeno príncipe cativada por sua visita diária e que sabia que choraria pela ausência do amigo, mas que fez questão  assim mesmo de tê-lo por perto.
Os atos mais simples deixaram de ser ordinários para serem as mágicas mudanças quase sempre invisíveis em nossa rotina e que nos torna mais humanos: sentir e ter consciência do que se sente.
Meu pai se foi sem expressar com palavras o que sentia e muitas vezes expressou o oposto do que sentia em seus atos. Tudo isso tornava difícil para qualquer expressar sentimentos perto dele, principalmente diretamente para ele. Mas posso dizer que conseguir muitas vezes pular esse muro e expressar o que sentia por ele, que ele se foi sabendo o quanto eu o amava.
A distância de tudo, entretanto, é traiçoeira e ainda sinto falta da despedida, de um abraço, de uma palavra que não ouvi ou de um sorriso que falasse no silêncio... Não sei se sinto falta dele simplesmente, ou de algo que me confirme que é verdade que ele se foi. 
Minha vida continua, meus planos e o futuro que estou construindo. Mas há essa presença constante de um vazio dolorido...

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